Menos foco no corrupto, mais vigilância ao corruptor.

March 15, 2017

Durante muito tempo fui vítima do esquema de corrupção mais comum de todos. A trambicagem acontecia debaixo do meu nariz e eu não desconfiava. Às vezes eu até sentia que algo estava errado, mas seguia na inércia do dia a dia e nada fazia. Demorei pra investigar. Compartilho o caso hoje porque mais alguém pode estar passando por isso.

 

Quando me dei conta de que eu estava sendo enganado, que eu estava trabalhando para pagar contas que eu sequer precisava ter, quando percebi que havia alguém roubando meu tempo para satisfazer vaidades e caprichos, armei uma tocaia permanente. Desde então, fico na espreita, só observando as atitudes desse salafrário conhecido como ego. O meu, no caso.

 

Muitas das escolhas que fazemos não são legítimas porque somos corrompidos por esse "camarada". Ele nos promete prazer, distorce nossa percepção sobre o que é importante, nos faz viver de futuro, achando que precisamos conquistar o máximo para garantir nossa segurança ali na frente. É ele quem nos faz perder o que temos de mais importante. Por causa do ego, perdemos a riqueza do agora e vivemos transitando entre realidades ilusórias.

 

Por que histórias como as de “Into the Wild”, “Hector and the Search for the Happiness”, “Captain Fantastic” e afins nos tocam? Quando ouvimos discursos como o de Steve Jobs em Stanford, como o do Mujica sobre dinheiro, ou como o do Eduardo Marinho sobre vencer na vida, por que sentimos uma centelha diferente quase acender um outro lado da percepção? Estes são alguns exemplos que me ocorreram, você certamente tem referências melhores. O importante é prestar atenção ao que chacoalha você.

 

Into the Wild - 2007

 

Não sei se essas emoções têm um nome específico, eu gosto de chamá-las de lapsos de realidade. Ficamos arrepiados, sentimos uma vontade nos invadir e, por um instante, temos força para fazer diferente. Não, pera. Preciso de mais grana antes de começar a fazer diferente. E somos corrompidos novamente. E tudo o que sobra daquele lapso é a trilha do Eddie Vedder, o iPhone do Steve ou a admiração por uma biografia mais entusiasmante que a nossa.

 

Esquecemos o arrepio que esquentou o coração e voltamos para a frieza daquela vida que nos garantiram que é preciso conquistar. É chato, mas nós precisamos ralar muito para chegar lá e mostrar quem somos – disse o ego. Sabemos que tudo pode ser mais simples, mas viver o simples parece complicado. Deixemos como está para ver como fica. E segue o jogo.

 

Nos colocaram em um paredão de pedra enorme, em uma escalada vertical sem fim na qual precisamos nos esforçar para chegar lá, mas sequer sabemos o que é e o que há nesse "lá". Não sabemos quando fincar uma bandeira e dizer “pronto, está conquistado, agora eu vou curtir isso aqui”. O ego nos quer mais alto.

 

Optar por diminuir o ritmo da subida pode nos preocupar um pouco no início, é normal. Mas, certamente, vai ajudar a diminuir essa vertiginosa ansiedade que às vezes sentimos quando estamos no alto e queremos subir mais. Não é errado querer subir, só é preciso que a motivação seja legítima. Alto ou baixo, há uma vista a ser apreciada onde você já está. Respire e aprecie, esse momento não vai voltar.

 

Captain Fantastic - 2016

 

É importante saber respirar e prestar atenção ao que acontece em volta enquanto respiramos. Literalmente. Outra coisa importante: não pode haver preguiça para investigar aquilo que a nossa intuição aponta como estranho ou fora do lugar. Se está esquisito, investigue. Não deixe que te enganem.

 

Frank Underwood, guru da pilantragem moderna, ensina que os fracos se corrompem por dinheiro, mas os sábios seguem suas escaladas atentos não só às cifras, mas às abotoaduras e ao peso das canetas quando assinam. Como dinheiro e poder estão intimamente ligados, eu diria que ambos são boas fábricas de corruptos. E de corruptores, claro.

 

Os grandes escândalos de corrupção dos quais temos notícias todos os dias não chegariam a tal ponto se alguém tivesse parado e se perguntado "por que diabos eu preciso de mais?" O fato é que não importa se é por dinheiro ou por poder, o fundamental é lembrar que antes desses dois está o ego, este sim é o grande mafioso. Quando você aprende a vigiá-lo, dificilmente você se corrompe e, de quebra, a vida fica bem mais fácil.

 

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