A carne só é fraca quando a consciência também é.

March 20, 2017

Na tarde de uma sexta-feira comum, Giovana chegou em casa com a notícia de que tinha sido demitida. Naquela tarde, o caminho do trabalho até a casa virou um angustiante caça-palavras, onde ela tentava criar as frases certas para me dar a notícia sem muita comoção.

 

Há quase um ano, ela vinha sendo o motor que garantia a navegação estável do nosso barquinho. Eu, sem emprego fixo, seguia nos "freelas" esporádicos. A estabilidade financeira vinha do trabalho dela. Desse dia em diante, passamos a ter um barco a vela e dois remos, um para cada um. Motores de propulsão em baixa potência.

 

Quem nos conhece sabe que ficar ao sabor do vento não é nosso perfil. Por isso, naquela mesma noite de sexta, começamos a remar juntos numa direção diferente. Agora, sem empresa, sem KPIs, regras ou chefe na mistura do combustível; os motores somos nós. A vela içada vem pegando bons ventinhos de vez em quando, mas a propulsão tá é aqui, no muque e na cachola.

 

Giovana trabalhava numa das maiores empresas de abate do mundo. Em média, mais de Sete milhões de animais são sacrificados diariamente. Sete milhões por dia em apenas uma das empresas do setor. O argumento para tirar a vida de tantos animais é "nós alimentamos o mundo." Curiosidade: há uns seis meses, iniciamos nossa transição para uma alimentação mais saudável, livre de industrializados e produtos de origem animal.

 

Não fazia sentido trabalhar em uma empresa que apregoa valores opostos aos nossos. A contradição a estava deixando doente, sem exagero. Por isso, quando ela chegou em casa com a notícia, nós comemoramos com brinde e tudo mais. Sem exagero. Cedo ou tarde, ela pediria demissão, já tínhamos decidido isso. Termos sido pegos de surpresa, apesar do susto, era o que precisávamos para navegar pelos mares que há tempos desejávamos.

 

 Nossa expectativa para o futuro, se nada der certo.

 

Hoje, a Giovana está prestes a abrir seu primeiro negócio. Aos 28, minha esposa vai colocar seu primeiro filhote no mundo. Ainda não é um “serumaninho”, mas fico emocionado quando olho para tudo o que estamos fazendo juntos e quando percebo o bem que ela quer fazer para o mundo. Sem exagero.

 

A transição saudável para uma alimentação livre de produtos de origem animal (plant-based, vegetariana ou vegana) exige que se busque conhecimento teórico e prático. Mas, olha, eu nunca imaginei que uma transformação dessa fosse tão bacana. Falta palavra pra descrever, sem exagero. Mexe com a alma, faz nascer em você benesses que você nem sabia que existia. Tentando traduzir, eu diria que tem a ver com empatia, respeito, compaixão, discernimento, amor e, sobretudo, saúde. É muito legal.

 

Muita gente ainda tem uma ideia meio distorcida sobre esse estilo de vida. Eu diria que a primeira dessas distorções é a de que o objetivo de se evitar produtos de origem animal é beneficiar a própria saúde. Eu diria que isso é a principal consequência, e não o principal objetivo. Nosso corpo se transforma e a maioria das doenças que são os grandes males da sociedade moderna tem seus riscos drasticamente reduzidos. Tá comprovado, pode pesquisar.

 

Parágrafo-parêntese: peço desculpas por não trazer para cá a discussão sobre a necessidade do ser humano ingerir carne, ovos ou laticínios. Peço gentilmente que você converse com seu nutricionista. Mas, olha, eu preciso fazer uma ressalva aqui: independentemente do que ele disser, tente avaliar tudo o que lhe foi ensinado sobre alimentação. Tente se lembrar, sempre, de que onde há a combinação ser humano e lucros até fábulas infantis tornam-se passíveis de manipulação. Eu sugeriria que questionemos mais e engulamos (que palavra feia) menos. O Soul Beta, aliás, é sobre isso.

 

 Cowspiracy: The Sustainability Secret - 2014. Favor assistir como se fosse cair na prova.

 

Quando uma empresa diz que pretende alimentar o mundo, ela precisa ser coerente. Olha o tamanho dessa incoerência: uma pessoa se alimentando, por um ano, de legumes, frutas, grãos, sementes, hortaliças e tudo o mais que a terra dá, demanda menos de 700 metros quadrados* de terra produtiva. Uma pessoa que se alimenta de carne demanda cerca de 12 mil metros quadrados*.

 

A razão é que a carne que comemos vem de um animal que também se alimenta de grãos (e come muito mais que nós). Se a área destinada a alimentar os animais fosse destinada a alimentar pessoas, não estaríamos perdendo mais de 10 mil metros quadrados de florestas tropicais por minuto* no mundo, como de fato estamos. Sem exagero.

 

Resumindo: se a empresa diz que está alimentando o mundo mas o faz com carne de animais, na verdade, essa empresa está devastando florestas e o ecossistema, dizimando mais de 110 mil animais de diferentes espécies por dia* e contribuindo para a desigualdade na distribuição de alimento no mundo. Ou seja, em vez de alimentar o mundo, essas empresas estão favorecendo a fome. E se você acha que a solução seria comer peixe, não vou nem entrar nesse assunto, senão você sai correndo e me deixar falando sozinho. É assustador, realmente.

 

A maior parte da produção de milho e soja no Brasil não é destinada a alimentação de pessoas. É a pecuária a maior consumidora de todo o grão. Devastamos a mata atlântica, plantamos para alimentar gado, porco, frango e exportamos a carne. Se essas terras fossem usadas para alimentar pessoas, com o plantio de toda a sorte de grãos e vegetais, precisaríamos de menos área para plantio e acabaríamos com a fome. A carne não alimenta, ela é fonte de lucro, corrupção e lobby. E, como sabemos, o lobby existe para tornar fácil aquilo que muitas vezes seria inaceitável.

 

No final deste post, há links de filmes legais que comprovam contas assustadoras como esta. É por causa de sustos como este (e do sustinho da demissão) que a Giovana vai começar esse novo negócio. Se você gostaria de se alimentar melhor sem depender da exploração animal, ela vai poder ajudar. Porque, além de termos passado por essa transição, ela vem investindo muito em aprendizado. E, acredite, uma dieta saudável e sem produtos de origem animal não precisa das frescuras "gourmetizadas" que você, provavelmente, está acostumado a ver.

 

Hoje, o tempo dela é destinado a cursos com pessoas que são referência no mundo sobre o assunto, a cozinhar e experimentar coisas novas (e me fazer de cobaia) todos os dias. Ela vem aprendendo, investigando, descobrindo e já está abarrotada de conteúdo para ajudar quem precisar de uma forcinha. Em breve, o site dela estará no ar e eu o divulgarei aqui.

 

 Sophia - a gata mais legal que já existiu. Tão inteligente e sensível quanto um porco, um boi ou um polvo.

 

Alguém, provavelmente, vai achar que esse post é mero oportunismo diante do problema da carne brasileira. Eu diria que a coincidência encontrou a oportunidade. Aqui em casa, a gente gosta muito dos bichinhos. Agora que já aprendemos que todos eles merecem continuar vivos, que já entendemos que não somos superiores a nenhuma outra espécie, nos só queremos espalhar a ideia.

 

Certamente, tem muita gente com o mesmo comichão que a gente tinha sobre esse assunto. A gente só quer ajudar quem quer ser ajudado. O mais legal disso é saber que quem quer ser ajudado não está pensando só em si, mas quer ajudar o mundo. E isso vale qualquer esforço. Sem exagero.

 

Abaixo, os links de alguns dos principais documentários sobre o que a indústria da carne vem fazendo com o planeta.

 

https://www.youtube.com/watch?v=DQCs-an-uBc

 

https://www.youtube.com/watch?v=vSDkcWGNGO4

 

https://www.youtube.com/watch?v=mcQOyeMCFJY&t=8s

 

https://www.youtube.com/watch?v=84vnLq9o1sc

 

*Os dados presentes neste post foram extraídos do infográfico do projeto Cowspiracy. Você pode checar estes e ter acesso a outros dados e fontes aqui: http://www.cowspiracy.com/infographic

 

 

 

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