A falta que você se faz quando não está presente.

March 29, 2017

Este texto nasceu no meio de uma aula de alemão, provando que, por alguns instantes, eu não estava lá - o que não é de se surpreender: às vezes essa língua faz o cérebro querer fugir da cabeça. De fato, vira e mexe a mente sai da sala para dar uma volta sem pedir licença. E quem perde com isso, claro, sou eu.

 

Mas dessa vez, enquanto estive fora, parei para dar uma olhada mais atenta ao passeio. E a primeira percepção foi a de que aprender outro idioma ou falar outra língua no dia a dia é uma baita aula sobre a importância de se manter presente. Se você é, por exemplo, um mau ouvinte e vive deixando a mente divagar, você vive de diálogos fracionados, seja em um papo de boteco ou na sala de aula.

 

Dá pra medir o tamanho da falta que nos fazemos quando nossa mente nos tira do presente? A cada vez que o nosso foco se dispersa, nos perdemos no assunto, o papo fica desinteressante, nós ficamos desinteressantes, tudo fica sem graça quando não estamos totalmente presentes.

 

Já ouvi que depressão é excesso de passado e ansiedade excesso de futuro. Claro, trata-se de uma análise rasa sobre essas doenças tão comuns. Mas, ainda que superficiais, são dizeres que fazem algum sentido.

 

Mesmo sabendo que o passado são apenas histórias que nos contamos, geralmente focamos nas piores versões dessas histórias. E o futuro, bem, se eu sequer consigo controlar como este texto vai acabar, quão importante é o futuro para me tirar do presente? 

 

Essa análise sobre a mente que vive transitando entre passado e futuro ajuda a mostrar que temos a triste mania de nos puxar para esferas distantes do agora. Vivemos tentando prever circunstâncias, criando diálogos, consertando situações que não existem mais, sofrendo por erros que não refletem quem somos hoje. Vivemos nos julgando em todos os tempos verbais.

 

Aprendemos que a felicidade são apenas momentos que, vez ou outra, conseguimos como recompensa de muito esforço. Trata-se de uma felicidade impossível de se ter a todo momento, algo, claramente, vinculado a raras ocasiões. Será mesmo?

 

Se a felicidade só pode ser experimentada em doses, seria possível ao menos aumentar a frequência dessas injeções de (vida com mais) ânimo? Tendo a acreditar que sim. E tenho acreditado cada vez mais que viver feliz depende do quanto você consegue educar sua mente, tomar conta dos pensamentos como quem cuida de uma criança.

 

Não se pode deixar uma criança sozinha, indo aonde ela quiser e fazendo o que ela bem entender. O mesmo acontece com a nossa mente. Ela não tem juízo e não sabe se cuidar sozinha. Tem que tomar conta.

 

 Hector and the Search for Happiness - 2014. Um dos meus top ten filmes-para-se-chorar-com-coisa-boa.

 

É quando conseguimos estar inteiramente conectados com cada momento, por mais banal que ele pareça, que estamos experimentando a felicidade. Precisamos nos treinar a observar o simples com presença plena. Assim, uma simples caminhada ao sol (ou mesmo na chuva) vai trazer alegria. Precisamos parar de sair do trabalho e chegar em casa sem notar o caminho que fizemos. Felicidade é excesso de presente.

 

Então, surge a dúvida: como me manter no presente? Se todo mundo tivesse acesso a essa resposta com a mesma facilidade que ela é propagandeada, o mundo seria outro. O que eu posso dizer a partir das minhas experiências é que não é fácil, mas vale o esforço. A vida muda depois que se aprende a tomar conta da própria mente. E a vigilância tem que ser 24 horas. Dá trabalho no começo, mas com o tempo a gente vai pegando o jeito, como em qualquer atividade nova.

 

É legal lembrar que os pensamentos que a nossa mente produz são criados a partir do que absorvemos ao longo da vida e não a partir do que somos originalmente. Você acha mesmo que a Coca-Cola entende de felicidade, que o McDonald's pode falar de amor ou que a Apple um dia quis, realmente, que você pensasse diferente? Não precisamos ficar aqui pensando em exemplos de como nossa mente é condicionada a um mundo que não faz parte da nossa essência.

 

Daria pra indicar livros, sites, vídeos no YouTube, mas acho delicado indicar esse tipo de busca. Mesmo que eu fosse falar sobre o que já experimentei, eu faria ressalvas. É importante que cada um busque os caminhos mais naturais e orgânicos para si. Há uns cinco anos alguém me indicou um aplicativo de meditação guiada e, desde então, eu venho aprendendo mais e mais sobre essa que, para mim, é a melhor ferramenta para se aprender a monitorar os pensamentos e se manter no presente.

 

Outra coisa que ajuda a se manter no presente é experimentar coisas novas. Acredito que muitas atividades se tornam viciantes porque conseguem fazer com que estejamos integralmente no presente. Aprender um instrumento, dançar, saltar de paraquedas, nadar, pedalar. Esportes de alto risco, por exemplo, são tão gratificantes porque não se pode correr o risco de não estar inteiro e concentrado ao que está sendo feito. Fica o alerta: viver o presente com intensidade pode causar dependência.

 

Mindfulness, Yoga, Meditação Zen ou Transcendental, esporte radical, vídeo no YouTube, aplicativo de meditação guiada, livros, blogs. Descubra o seu meio de treinar a mente, de silenciá-la, de se manter no presente. Meu próximo experimento vai ser com o Zen Budismo. Algo me diz que vai ser, no mínimo, muito interessante.

 

Você tem um mundo de possibilidades e ferramentas, todas bastante acessíveis. Não dá pra viver achando que a felicidade está por vir, dependendo de alguma conquista ou de um tempo futuro. Ela já é, já está acontecendo. A vida é agora e o agora tem que ser o melhor da vida.

 

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