A falta de lógica da nossa lógica de consumo.

April 18, 2017

Dia desses, abri o guarda-roupa e peguei uma camisa que há muito tempo eu não usava. Quando a vesti, o cheiro do tecido passou pelo nariz e me fez lembrar Ana Maria. Bons tempos aqueles.

 

Em todo início de ano, nos primeiros dias de janeiro, minha mãe me levava até a casa da Ana Maria para ela tirar minhas medidas. Ana Maria era uma das costureiras do bairro, a responsável pelas calças e bermudas azuis com pregas e camisas brancas do meu uniforme do primário. Coisa linda eu indo pra escola. Só vendo.

 

Lembrei-me saudosista da Ana Maria quando, ao vestir a camisa velha, notei que ando precisando de umas roupas novas. Essa nostálgica lembrança, certamente, foi ativada em razão da preguiça que eu tenho de comprar roupas. Saudade dos tempos fáceis de criança.

 

Comprar roupas me causa um mini-stress. As grandes lojas, mais baratas e cheias de variedade, me deixam zonzo. As menores e mais exclusivas me irritam pelo preço. Além disso, sempre que eu olho para uma etiqueta de preço, meu inconsciente me dá um cutucão para me lembrar que, baratas ou caras, geralmente elas custam mais do que o preço que está ali.

 

Foto: unsplash.com/@artificialphotography

Uma das minhas causas de stress na vida: arara de roupas. A propósito, por que isso se chama arara? 

 

Essa mania de ficar velho e começar a questionar tudo vai deixando a vida complicada. Quando a gente começa a entender minimamente como certos sistemas funcionam, fazer escolhas coerentes começa a dar trabalho. Mas não fazê-las incomoda ainda mais. Como lidar? No programa de hoje, caro ouvinte, compartilho mais um drama da vida real.

 

Seria fácil mostrar aqui, usando tabelas e infográficos, o real custo de uma peça de roupa considerando toda a sua cadeia de produção. Convenhamos que esse é um tipo de dado fácil de se encontrar, basta estar interessado. Preferi outro tipo de reflexão, algo mais relacionado à Ana Maria versus a nossa atual "lógica" de consumo.

 

Já estamos atrasados para negociar a dívida relativa a todos os custos não embutidos nos preços de tudo o que compramos. Você já parou para pensar que absolutamente tudo o que consumimos, de vestuário à alimentação, de brinquedos infantis à indústria farmacêutica, tudo tem seus insumos retirados, direta ou indiretamente, da mesma fonte?

 

Se você, amigo humano, está pensando em se reproduzir ou já colocou o seu representante para as próximas gerações nesse mundo, permita-me a indelicadeza da pergunta: "qual legado você está deixando para o futuro além de mais alguém para consumir?"

 

Gosto dessa "provocação" porque me inspiro na minha infância e na minha criação para fazê-la, o que a torna um questionamento legítimo. Porque, assim como me lembro da Ana Maria, me lembro de muitas atitudes dos meus pais relacionadas a este assunto.

 

Atenção, é só hoje, mas é só hoje mesmo!

 

Se alguém me perguntar “seus pais foram bons exemplos de consciência e cuidado com o futuro da humanidade?” eu diria que, infelizmente, não me lembro de muitos bons exemplos. Eles estavam mais preocupados em trabalhar para garantir o nosso sustento - o que eu agradeço imensamente. Obrigado, pai e obrigado, mãe. De coração.

 

Penso muito em que tipo de lembrança quero que minha prole tenha sobre este assunto. Quero que, quando adulta(o), ele(a) pense algo como “naquela época, meu pai já era danadão, já sabia que o sistema de consumo estava todo ferrado e começou a me ensinar a pensar diferente". Se chegarem no danadão, já fico feliz.

 

Eu tinha tudo para ter me tornado um adulto materialista. Por estarem sempre trabalhando, meus pais precisaram terceirizar praticamente toda a minha criação. Hoje eu percebo que uma das formas que eles tinham de compensar a constante ausência era com presentes materiais.

 

Morávamos numa área da cidade afastada do centro, ali na parte baixa da pirâmide, mas bons brinquedos nunca me faltaram. Minha mãe até hoje se orgulha em dizer que, por vezes, precisaram fazer um arrocho orçamentário para me dar alguma coisa. De novo, obrigado pai e obrigado, mãe. Super entendo vocês, mas não precisava tanto.

 

Quando se substitui presença e carinho por coisas materiais, pode-se estar criando um adulto que continuará dependendo de coisas para ser feliz, um adulto que, possivelmente, dedicará sua vida a ter. Confesso que tive pequenas fases críticas, mas nada que fizesse de mim uma pessoa problematicamente materialista.

 

Vista-se como eu para ver o mundo daqui de cima ;-)

 

Por sorte, a casa onde eu passei a maior parte da minha primeira infância era uma casa de pessoas de vida simples. Sou grato por meus pais terem decidido me deixar sob os cuidados da minha tia Ninha, uma pessoa que eu respeito e admiro tanto quanto pai e mãe. Lá eu aprendi coisas como moer o pão de ontem para fazer farinha de rosca. Veja que curioso, essa é uma das lembranças mais vivas da minha infância.

 

Tinha também um primo mais velho que era marceneiro. Um artesão que estava sempre lá nos fundos da casa, trabalhando, fazendo barulho e pó de madeira. Era uma das minhas companhias preferidas. Construir coisas com as mãos: que trabalho incrível. Até hoje admiro muito quem trabalha com as próprias mãos.

 

Cheiro de madeira, serragem, pão torrado, cheiro de tecido são experiências sensoriais que me levam de volta a um tempo onde a minha relação com as coisas era tão mais simples, que até da costureira bateu saudade, vai vendo.

 

Menos  saudosismo e nostalgia, vai. Tenho só 35 e me acho novo para começar a dizer que "no meu tempo era mais legal". Mas uma coisa não dá pra negar: quando eu olho para trás e comparo com o agora, acho tudo meio mal enjambrado. Aí acaba batendo uma saudade mesmo.

 

Não sei se a minha infância de poucos recursos não me permitiu ver que, naquela época, as pessoas já consumiam exacerbadamente, compravam sem necessidade. Não sei se naquela época já éramos tão enganados pelo sistema econômico e midiático. Éramos? Alguém tem esse comparativo? 

 

O tempo todo somos estimulados a comprar, possuir, demonstrar que somos melhores por meio das coisas que temos, coisas que conquistamos com uma equação estudo x trabalho x esforço. A necessidade de ter nos venceu, perdemos a vontade de ser. Sei que não é o seu caso mas, se for, se acalme porque tem remédio.

 

E se passássemos a ter consciência de que tudo o que compõe esse nosso estilo de vida de conforto e praticidade é oriundo de uma mesma fonte? É difícil saber quais foram as mãos que fizeram o casaco que vestimos, mas é fácil lembrar que absolutamente tudo o que o compõe, do algodão da fibra ao plástico do botão, foi extraído da natureza. É fácil lembrar disso na hora de comprar.

 

O preço de uma caneta de plástico não é só quanto ela vale, mas tudo o que custou para ela ser feita. O pneus de um carro, idem. Um carro elétrico não é ambientalmente perfeito como imaginamos. Experimente pesquisar sobre como se produz sua bateria, a tinta que colore a lataria, o esmalte que protege a tinta, o couro dos bancos.

 

Com um desses livros, você descobre como temos cérebros facilmente manipuláveis. Com o outro, você percebe que o capitalismo está se tornando aquele tiozão ultrapassado e esbanjador, que vive de aparências. Entenda mais aqui.

 

Praticamente todas as outras espécies de animais estão vendo suas populações diminuírem, exceto a nossa. Nós só crescemos e crescemos rápido. Foram precisos 200 mil anos para chegarmos a 1 bilhão de pessoas no mundo, mas apenas 200 para atingirmos os 7 bilhões. Nos multiplicamos exponencialmente e continuamos extraindo nossos recursos do mesmo lugar.

 

Recentemente, um amigo entendeu que apenas a forma como nos alimentamos já seria capaz de tornar a terra um planeta inabitável no futuro, exatamente como aquele planeta terra do filme "Interstellar" (dizem que para uma verdade parecer mentira, basta fazer um filme sobre o assunto). Ele percebeu que a forma como nos alimentamos não é só uma das causas do nosso câncer, mas é o principal câncer do planeta.

 

Quando fez essa descoberta, esse amigo me perguntou "quer dizer então que só temos duas opções: ou mudamos nossa alimentação ou paramos de nos reproduzir?"

– Olha, eu não fiz essa conta, mas quem fez garante que ela está certa - respondi. Talvez 50% de cada opção também resolva, mas ainda faltaria falar dos bens de consumo, como nossas roupas, por exemplo.

 

Eu gostaria muito de descobrir, de repente, que tudo isso está errado. Se você tiver como me provar que isso tudo é uma grande maluquice e que tudo vai muito bem, por favor, me ajude, porque quanto mais eu entendo o nosso sistema menos eu entendo a lógica do ser humano.

 

Não é possível que uma espécie, sozinha, seja capaz de destruir o próprio ambiente que a hospeda. Aliás, corrigindo: é possível e nós sabemos quais tipos de seres vivos fazem isso. Se somos inteligentes como dizemos ser, por que não mudamos? Queremos mesmo ser um vírus, uma praga, um parasita? Não gosto dessa comparação.

 

 The Minimalists - 2016. Assista no Netflix do amigo, caso você ainda não tenha uma conta.

 

Há muito tempo, assisti a uma palestra no TEDx de dois caras - Joshua Fields Millburn & Ryan Nicodemus. Eles se diziam "Os Minimalistas". Pesquisei mais e vi que esses caras tinham um site cheio de podcasts com dicas sobre como se viver com menos. Achei legal demais e passei a segui-los.

 

Recentemente, descobri que os caras já têm até um filme super bem produzido no Netflix. Vale a pena assistir. Vale a pena entender o impacto do nosso estilo de vida. Vale a pena parar de depositar nas coisas aquilo que gostaríamos de ser na alma.

 

Todo mundo sabe que no frigir dos ovos, no fim das contas, no juízo final, no pio da jiripoca não é com "externalidades" que melhor nos revelamos. Às vezes, nossos bens, nossa roupa, nossa "casca" diz mais sobre o que gostaríamos de ser ou sobre nossas fragilidades do que sobre o que realmente somos.

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