O que você faz com o que não lhe serve mais?

April 27, 2017

Quando eu conheci a Mariana Pellicciari, ela não sabia dar cambalhota. Descobri isso durante as aulas de circo que fazíamos juntos, sempre às quartas, depois do trabalho.

 

Era curioso ver uma pessoa com medo de dar cambalhota. Era divertido ver a Mari sofrendo para se jogar no chão e conseguir fazer algo tão simples. Essa história, aliás, é sobre isso: sobre as coisas simples e desafiadoras de se realizar na vida.

 

A Mari venceu um dilema bem maior, um medo recorrente na vida de muita gente. O medo de se jogar e deixar para trás tudo o que não serve mais.

 

Trabalhamos juntos em uma agência de propaganda em São Paulo. Ao final de quatro anos de convivência, vi a Mari pedir demissão. A razão daquele movimento era simples, porém era algo difícil de se enfrentar, assim como as cambalhotas eram para ela. Ela decidiu que queria fazer mais sentido, mas para isso ela precisaria se jogar.

 

Olhar para o que você faz todos os dias e parar de ver sentido naquilo é complicado. Você pode tentar resolver ou pode ir deixando rolar, esperando que as coisas melhorem. Só que não adianta esperar resultados diferentes quando se continua fazendo as mesmas coisas.


Quando a Mari sentiu que precisava mudar, ela mudou. Que coragem ela teve. Lembro que eu fiquei meio impressionado e até um pouco cético com a velocidade de sua mudança. Mas ela se jogou e, pelo o que eu tenho visto, ela anda se virando bem.

 

Ela deixou a propaganda porque, segundo ela mesma conta, não podia mais ser parte de um sistema que estimula as pessoas a consumirem mais. Isso não combinava mais com ela. Criar campanhas que não só estimulavam o consumo como também presenteavam com brindes e cupons de sorteios as pessoas que mais compravam não dava mais.

 

Sua principal inquietação era com o universo da moda, um mercado que consome insumos naturais, milhões de litros de água diariamente, contribui para práticas análogas ao trabalho escravo e é umas das atividades relacionadas ao consumo humano que mais demanda do planeta. Já falamos sobre isso aqui.

 

Depois que saiu da agência, a Mari fundou o Roupa Livre - um movimento que não só mostra os malefícios da indústria da moda para o mundo, como aponta soluções. É a velha máxima do senso crítico praticado com bom senso: vai me apontar um problema? Então, por favor, aponte também uma solução.

 

Não precisamos de mais roupas novas, nós precisamos de um novo olhar – ela diz e eu confio.

 

O principal argumento do Roupa Livre é o de que já existem roupas demais no mundo, roupas suficientes para vestir algumas gerações. A indústria não para de produzir e nós não paramos de comprar. Será que precisamos mesmo comprar roupas novas com a frequência que compramos?

 

O movimento da Mariana diante da sua insatisfação profissional e o nascimento do Roupa Livre comprovam que caminhar na direção do que faz mais sentido, nos leva para perto de melhores propósitos de vida. Veja como foram os passos da Mari e como o projeto nasceu:

 

• Primeiro ato:

Antes de deixar a propaganda, Mariana participa de um evento chamado Re-roupa, da Gabriela Mazepa, onde tem sua primeira epifania ao perceber que roupas transformadas por suas próprias mãos agora sobreviverão por muito mais tempo em vez de serem descartadas.

 

• Segundo ato:

Mari toma gosto pelo lance de transformar roupas com as próprias mãos e decide aprender mais. Ela faz um curso de costura com A Costureirinha Elisa Dantas e ali cria-se mais um laço importante.

 

• Terceiro ato / Turning Point / Cambalhota:

Gabriela, Elisa e Mariana. Três pessoas cheias de boa vontade e vontade de fazer melhor se juntam e dessa união nasce o Roupa Livre. O projeto começou como um evento único, mas hoje são mais de seis mil pessoas envolvidas e diversos projetos-filhotes que não param de crescer.

 

Hoje, no site do Roupa Livre já se encontram e-books sobre consumo consciente, cursos e mentorias, um calendário de eventos comandado pelas meninas e por embaixadores espalhados Brasil afora e o filhote que eu mais gosto de mostrar para as pessoas – o Roupa Livre App.

 

Roupa Livre App – disponível para iOésses e Andróidissons

 

O Roupa Livre App é legal demais. Sou suspeito para falar dele porque acompanhei seu desenvolvimento, sei o tanto que a Mari ralou para fazê-lo acontecer e, por último, participei do financiamento coletivo que fez o aplicativo vir ao mundo. Ele funciona exatamente com a mesma dinâmica do Tinder, só não rola a pegação. Eu acho. E o passo-a-passo do troca-troca de roupas é muito simples.

 

Primeiro, você fotografa aquelas roupas que você não usa mais e coloca as fotos no App com descrições e tudo mais. Depois, você começa a navegar e curtir as roupas da galera que também já postou suas roupas por lá. Se você curtiu uma roupa e o dono dessa roupa também der like em uma peça sua, rolou o match. Vai lá e troca, bate-papo, faz amizade. Demais, não?

 

É isso que o Roupa Livre mais tem feito desde que nasceu: conectar pessoas motivadas por um mesmo próposito, pessoas com o senso de coletividade e responsabilidade que o mundo precisa. É por isso que o projeto não para de crescer. E também porque ele foi feito com alma, claro. Caso contrário ele não estaria aqui, no SoulBeta. [emoticon de orgulho]

 

Sugiro que você visite o site, puxe papo com Mariana, entre em contato, faça perguntas e, se possível, tente levar este projeto para perto de você, conte prazamiga e pruscolega, espalhe a ideia. O bem que ideias assim fazem ao mundo é impossível de ser mensurado.

 

Eu e a Giovana, minha esposa, estamos trabalhando para trazer o Roupa Livre para a Áustria. Recentemente, a Mariana me contou que o Roupa Livre está na seletiva do Red Bull Amaphiko - um programa de incentivo a projetos com forte impacto social. Então, pensei que talvez isso seja um sinal de que é hora de trazer isso para o hemisfério norte. A Red Bull é uma empresa austríaca, caso algum leitor ainda não saiba.

 

Queremos organizar feiras de trocas, divulgar o App, descobrir pessoas que consertam roupas, fazer oficinas, tudo o que couber em Viena e dentro das nossas possibilidades . Se você também mora na Áustria e quer participar de algum jeito, fala com a gente nos comentários, pelos site, Facebook, como quiser.

 

Trilha solene para as considerações finais.

 

Mariana Pellicciari, parabéns pelas cambalhotas que você aprendeu a dar. Parabéns por ter deixado para trás o que não lhe servia e ter se virado muito bem depois disso. Parabéns e obrigado por nos incentivar a também abrirmos mão do que não nos serve mais.

 

E a você, amigo leitor, se você conhece pessoas que estão fazendo bonito feito a Mari e suas sócias, com ou sem cambalhota, conta pra gente. Envie uma mensagem para o SoulBeta contando um pouco sobre algum projeto e sobre as pessoas que têm algo MadeWithSoul.

 

Até mais!

 

 

 

 

 

 

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