Viagens e notas de uma viagem.

June 11, 2017

Mais de um mês de ausência, mas estamos de volta. Pedimos desculpas e apresentamos aqui o relatório que justifica o sumiço do SoulBeta. ;-) Tempo estimado de leitura: 15 minutos.

 

Fazia uns 20 minutos que eu e Giovana nos equilibrávamos dentro daquele busão lotado. Logo na primeira parada, os mais jovens tiveram que se levantar para ceder seus lugares à turma dos nem tão jovens senhores e senhoras que não parava de entrar aos montes. Velhinhos e velhinhas ativos e simpáticos, aproveitando suas últimas metades de vida em grande estilo. Estávamos chegando a Positano, na Costa Amalfitana.

 

O motorista serpenteava por uma estrada estreitíssima, cheia de cotovelos, em um declive que, de tão acentuado, às vezes nos fazia flexionar uma das pernas para manter o equilíbrio. Era uma descida que parecia não ter mais fim. A recompensa para o perrengue do sacolejo era visual e estava logo ali, banhando o pé das montanhas e no paredão de casas oposto às pirambeiras por onde passávamos.

 

O azul turquesa do Tirreno e as lindas moradias e pousadas incrustadas nas montanhas criavam um cenário digno de quadro de sala de espera de consultório médico. Ou seja, um desbunde que, se não for pra ser visto ao vivo, não merece tanta atenção.

 

• Nota de Viagem: não esperar a segunda metade da vida para fazer as coisas boas de serem feitas na primeira metade. Podem não haver mais bons joelhos.

 

Se você tem medo de altura, sugerimos que sente-se nas poltronas da esquerda.

 

Chegamos ao nosso destino. Descemos do ônibus e continuamos por alguns minutos ali, no ponto, admirando aquela maravilha de cenário. Toda a Costa Amalfitana e suas mini-cidades compõem um dos Patrimônios Naturais da Humanidade. É natural que nos primeiros momentos você fique meio aturdido com tanta informação, admirando cada cantinho sem saber se contempla ou se tira fotos pra postar e fazer inveja nazamiga. Normal essa dúvida para os dias de hoje. O que não pode ser considerado normal é você esquecer suas malas no bagageiro do ônibus que acabou de ir embora.

 

– Gil, as malas, caralho!

 

– Puta que nos pariu, as malas!

 

A primeira ideia que me ocorreu para solucionar esse disparate me pareceu ser a melhor possível. Pensa comigo: fazia uns três minutos que o ônibus tinha saído dali. Como a estrada era estreita e o ônibus precisava andar com relativa lentidão, achei que o melhor a se fazer fosse sair correndo imediatamente, na esperança de alcançá-lo em algum momento. Que idiota, né? Eu sei. Mas vai escutando.

 

Claro que era impossível. Mas eu sabia que, no meio dessa súbita meia-maratona, vários carros passariam no mesmo sentido que eu e, vendo um rapaz relativamente bem apessoado, pedindo carona enquanto corria desesperado por aquele cenário cinematográfico - um lugar onde é fácil se sentir agradecido por estar vivo e com vontade de ajudar o próximo - um motorista me concederia uma carona. O plano deu certo, mas não foi bem assim que aconteceu.

 

– Gil, as malas, caralho!

 

Disparei imediatamente, como num tiro de 100 metros que, porém, duraria vários quilômetros. Algumas pernadas depois, olhei para trás e vi Giovana tentando me acompanhar. Os velhinhos no ponto tiveram seus minutos de diversão gratuita enquanto eu corria e gritava: "fica aí, Giovana! Não sai daí que eu vou voltar com as malas!"

 

• NV: a primeira ideia, às vezes, é a melhor que se pode ter. Desde que você já tenha sido escoteiro. 

 

Baden Powell (não o sambista, mas o fundador do escotismo - Robert Baden Powell) criou o lema que acompanha a vida de todo bom escoteiro ou ex-escoteiro mundo afora. Powell usou as siglas do próprio nome para criar o "Be Prepared" (esteja preparado), que, no Brasil, os grupos escoteiros adotaram como "sempre alerta".

 

Se você costuma debochar de escoteiros, pode começar a repensar esse preconceito aí. Essa moçada está sempre alerta, assim como eu.

 

Antes de chegarmos a Positano (veja que mente problemática) enquanto o ônibus descia pelos desfiladeiros, enquanto todos curtiam a paisagem, tiravam fotos e filmavam aquele visual que faz você esquecer os problemas da vida, passou pela minha cabeça o seguinte possível-problema: "se a gente descer desse ônibus e esquecer de pedir ao motorista para abrir o bagageiro (visto que éramos os únicos com malas no ônibus), o melhor a se fazer é sair correndo atrás do ônibus."

 

Depois que pensei nessa possibilidade, eu tinha certeza que ela não aconteceria de jeito nenhum, afinal de contas, eu já estava alertão. Minhas conclusões quanto a isso: 1 - não confie na memória e 2 - be prepared, my friend. Esteja sempre alerta pra não precisar pensar muito quando pintar problema.

 

 

Nápoles. O começo de tudo e as primeiras notas.

 

O ser humano é uma máquina criadora de expectativas e julgamentos. E eu diria que, entre as razões dos nossos maiores problemas sociais estão a falta de empatia, as expectativas desalinhadas com a realidade e a nossa (in)capacidade de julgar.

 

• NV: quanto menos expectativas você cria, maiores suas chances de contentamento.

 

Nápoles foi o começo e o fim de toda a jornada pela Itália. Rodamos bastante, mas entramos e saímos por Nápoles. Na chegada, desembarcamos na Estação Garibaldi, no centro da cidade. Visualmente, sem muitas novidades. Para quem conhece o centro de cidades como Rio de Janeiro, São Paulo ou Salvador, não havia nada ali que já não estivéssemos acostumados. Figuras suspeitas, caos visual e sonoro, pedestres e carros se misturando num emaranhado de vias, placas, motos e bicicletas. A preferência ali é do mais ligeiro. E funciona.

 

 Caos napolitano. Essa é uma parte organizada.

 

Em Viena, onde temos nosso cafofo, pedestres não atravessam a rua se o sinal estiver vermelho para eles. Não importa se está vindo carro ou não. Se o sinal de pedestres está fechado e você vir uma pessoa atravessando, a chance dessa pessoa não ser austríaca é grande. Este e outros hábitos vienense, sim, me surpreenderam quando cheguei na Áustria. Viena é uma cidade onde as regras são respeitadas com muito rigor e o sinal para entrar no espaço alheio quase nunca é avançado. 

 

Nápoles é diferente. Antes de sair de casa para essa viagem, eu não pesquisei nada sobre Nápoles, foi Giovana quem se encarregou de tudo, do Airbnb aos restaurantes. Eu não sabia quase nada sobre a cidade e, justamente por isso, por não ter criado absolutamente nenhuma expectativa sobre o lugar, nada me surpreendeu. Tudo foi novo e bem aceito, sem preconceitos. "Olha, que legal... não sabia que Nápoles era essa zona" - disse o Gil com satisfação.

 

• NV: não despender energia intelectual com julgamentos. Exceto que se seja um bom historiador, não é possível conhecer a trajetória de nenhum povo a ponto de ser um juiz de bom senso ou de boas práticas. Ser tolerante e jogar o jogo de quem tem o mando de campo.

 

Quanto mais gente e lugares novos se conhece, mais aprende-se que julgamentos são perda de tempo. Se eu, por exemplo, gastasse energia criticando o estilo de vida dos austríacos, não faria sentido continuar morando aqui. A melhor qualidade de vida - dizem - é dos caras. Quem sou eu para julgar os hábitos e regras deles? Eu vou é jogar o jogo, amigo. E vou jogar o melhor que eu puder, seguindo as regras da casa e, principalmente, aprendendo os porquês de tudo funcionar tão redondinho por aqui.

 

No segundo dia de Nápoles, resolvemos conhecer a parte histórica da cidade. Conhecemos a “Napoli Soterranea” e descobrimos ali três períodos distintos divididos em camadas – o período grego, o romano, a idade média e, por cima de tudo isso, a Nápoles que se conhece hoje. Sim, meu amigo e minha amiga, três camadas de cidade, uma por cima outra, cada uma com uma história longa e diferente. E todo o lugar serviu de abrigo e proteção durante a segunda guerra. Entende o que eu digo? Olhando para a história dessa galera, eu penso logo "quem sou eu pra pedir um italiano pra falar mais baixo?"

 

 

Almoçamos e jantamos pizza por dois dias seguidos. A simplicidade e o sabor da pizza napolitana prejudicou bastante o meu critério para comer pizza daqui pra frente. Complicou a vida, mesmo. A pizza como conhecemos hoje foi desenvolvida pelos caras. Imagina o tamanho do problema.

 

Tínhamos planejado ficar mais tempo em Nápoles mas, depois de três dias, mudamos os planos, cancelamos as reservas e resolvemos encontrar o pai e a madrasta da Giovana, que estavam há alguns dias em Positano. Pegamos um trem para Sorrento e, de lá, um ônibus em direção ao sul. Sim, o busão das malas.

 

(...) – Gil, as malas, caralho! (...)

 

Devo ter corrido uns 500 metros quando vi uma enorme quantidade de Vespas estacionadas rentes ao muro que separava a estrada de uma ribanceira. Um típico italiano tinha acabado de montar na sua vespinha preta e envenenada e se preparava para sair. Barba por fazer, nariz e queixo bem desenhados, rosto simétrico, um olhar permanentemente sedutor. Ele colocava o capacete enquanto eu, mais uma vez, pensava "tomara que você morra, pra quê ser tão bonito, cacete?"

 

Um parêntese para os amigos que se acham muito bonitões: mesmo que você seja o grão-mestre da autoestima, a Itália tem dessas coisas. Você entra com a sua mulher no restaurante e o garçom é três vezes mais bonito do que você nascido e aperfeiçoado por três encarnações. Dá vontade de dizer "cara, senta ali pra jantar com a minha mulher que eu vou tirar os pedidos pra você, na boa."  

 

Eu não podia torcer pra ele morrer naquele momento porque eu ia subir na sua garupa em alguns segundos. Ele estava terminando de colocar o capacete quando eu o abordei botando para fora os bofes e um inglês todo esbaforido.

 

[Versão brasileira - Hebert Richers]

 

– Hey, man! Would you make me a huuuge favor?

Ei, cara, você aí. Será que você pode me fazer um grande favor? Eu estou em grandes apuros.

 

O italiano responde com um olhar James Jean.

– Tell me what you need, man.

Conte-me o que você precisa, forasteiro.

 

– Did you see a bus passing by here few minutes ago?

Você viu um ônibus passar por aqui, cara? Um grande ônibus passou por aqui alguns minutos atrás. Você o viu? Diga que você o viu, cara!

 

­– No way, man! God dammit! You don’t need it, do you? I don't have other helmet here.

Macacos me mordam, você não vai me pedir para seguir aquele ônibus, vai? Eu não tenho outro capacete para você, cara, e os tiras podem passar por nós a qualquer momento.

 

Convenci o cara, subi na Vespa envenenada sem capacete, e dali partimos feito o demônio-na-moto-do-Batman pelas curvas da estreita intermunicipal de Positano. O cara fazia algumas curvas raspando as pedaleiras no chão, pra você ter ideia do cagaço que eu passei.

 

Alcançamos o ônibus, o motorista desceu para abrir o bagageiro com aquela maldita mão italiana virada para cima, como quem diz - "mama mia, como alguém esquece suas malas dentro de um ônibus?" Dei 10 euros para o cara da Vespa. Ele e o ônibus foram embora e  eu fiquei ali, sozinho, sentado sobre as malas, esperando uma carona passar e me levar de volta ao ponto onde a Giovana estava me esperando, agora com seu pai.

 

Peguei um outro ônibus que passou por ali e minutos depois eu já estava de volta a ao ponto. Abracei todos calorosamente quando retornei. Rimos muito. Esse dia foi foda.

 

Não desejo que nenhum italiano morra, antes que eu me esqueça.

 

 

Desculpe, mas este quarto eu não alugo.

 

• NV: quanto mais representantes da melhor idade num mesmo destino turístico, maiores as chances deste ser um local com preços acima da média. 

 

Bons restaurantes, boa comida, paisagens de tirar o fôlego, mar lindão e tudo relativamente inflacionado. Passaríamos apenas uma noite em Positano antes de partimos todos juntos para a Calabria, mais ao sul da Itália. Logo que deixei as malas no hotel do meu sogro, comecei a procurar um lugar para eu e Giovana passarmos a noite.

 

Rodei todos os hotéis nos arredores, procurei no Booking, Airbnb, tudo caro demais. Já descrente de encontrar um bed and breakfast por menos de 100 euros, voltando para o hotel dos meus sogros parei para uma última tentativa e conversei rapidamente com um coroa na recepção de um hotelzinho cheio de quartos com vista para o mar:

 

– Mas você não tem nada mesmo? Nadinha? - perguntei.

 

– Nada, me desculpe. Estamos com 100% da lotação.

 

Neste momento, um jovem adentra o lobby e comenta algo em italiano. Para o azar do coroa, eu entendi tudo. O jovem estava tentando ajudar a resolver meu problema, mas, pela cara que o coroa fez, aquela ideia não deveria ter sido mencionada ali. 

 

– Ele disse que o senhor tem um quarto vago, não disse? - entrei no meio da conversa.

 

– Sim, mas é um quarto que não alugamos. Não é para clientes.

 

– O senhor se incomoda se eu pedir para vê-lo?

 

Contrariado, ele me levou até o quarto, resmungando e tentando me dissuadir enquanto descíamos vários lances de escadas. Nessa hora, claro, eu não me esforçava para entender o italiano. Eu só queria um quarto barato.

 

De fato, no quarto só cabíamos eu e  Giovana. A malas precisavam ficar encostadas na porta e, para abri-las, só colocando-as em cima da cama. Só dava para transitar de ladinho entre cama e paredes. O banheiro tinha apenas o essencial para cumprir as funções que um banheiro precisa cumprir.

 

– Quanto você cobra por este quarto?

 

– Como eu disse, eu não o alugo. Mas faço por sessenta e cinco euros para você.

 

– Pago quarenta, o que o senhor acha?

 

Conseguimos um quarto em Positano por 50 euros. Toda essa economia foi gasta, obviamente, em bons restaurantes.

 

• NV: sempre avaliar o real benefício de um "investimento" quando estiver viajando. Quem precisa de quarto confortável são os que precisam de mais tempo no quarto - geralmente, pessoas com joelhos ruins ou famílias com filhos pequenos. Se você é jovem ainda, gaste seu dinheiro com experiências, não com hidromassagens.

 

 

Calábria. As Giovanas quase me matam de emoção.

 

Eu sou o tipo de cara que chora lendo a própria certidão de nascimento. “Aos vinte e oito dias de setembro de mil novecentos e oitenta e um,  às dezoito horas e sete minutos, nasceu uma criança que recebeu o nome de...”, pronto, já caiu um cisco e embargou a voz aqui.

 

Depois de um pequeno tour por algumas outras cidades da costa amalfitana, pegamos a estrada e dirigimos até a Calábria. O principal objetivo dessa parte da viagem era que a Giovana IV, minha esposa, conhecesse seus antepassados italianos, principalmente a Giovanna I, uma tia avó com mais de oitenta anos, forte e sagaz que só você vendo. Eu não estava preparado para tanta emoção. Vai escutando.

 

Quando chegamos na propriedade, em Mendicino - uma minúscula cidade no sul da Itália, bem no peito do pé da bota, o chororô rolou solto. Quando vi aquele monte de gente mais velha chorando, uma galera forte feito touro, com as mãos calejadas e o rosto maltratado pelo sol,  quando vi esse povo se rendendo à emoção de um encontro que sequer imaginavam que aconteceria um dia, o que você acha que aconteceu comigo?

 

 Giovanna I e Giovana IV. Muita emoção no lance, amigos.

 

Representantes de gerações que sequer se conheciam, agora ali, trocando curtidas.

 

A essa altura eu só fazia apertar o botão da câmera sem nem olhar. Muito cisco no olho.

 

Aprendi italiano com as novelas de Benedito Ruy Barbosa, por isso ocupei a função fotógrafo em tempo integral. A galera lá não fala inglês e até o italiano deles é meio difícil de entender por quem já domina a língua, dizem. O dialeto calabrês ainda é muito forte dentro da família, principalmente entre os mais velhos. Quando eu não tinha nenhum momento especial para registrar com a câmera, eu me mantinha de boca cheia. E isso era bem fácil por lá. Fazia tempo que eu não comia tanto. Voltei da Itália com mais de cinco quilos de "excesso de bagagem", tudo na pochete.

 

• NV: conhecer suas raízes ajuda que você conheça mais de você e, como sabemos, autoconhecimento é fundamental para quem busca mais evolução enquanto ser humano.

 

Na Calábria, Giovana teve diversas epifanias enquanto conhecia sua família, seus costumes e histórias. Foi muito, muito legal viver isso junto com ela. Eu também tive as minhas, claro. As dela, prefiro deixar que compartilhe a seu modo. As minhas, na verdade, aconteceram, em sua maioria, quando subimos de volta à Campania, região de Nápoles. A cidade, dessa vez, era Roccarainola (a sílaba tônica é no “i”).

 

Antes de entrarmos no trem sentido norte, ainda usamos alguns dias para conhecer Cosenza e Fiumefreddo Bruzio. Fiumefredo é, provavelmente, uma dessas cidadezinhas onde o prefeito em breve oferecerá grana extra para quem se mudar para lá, como já acontece com lugares onde a população vem decrescendo. A parte mais alta da cidade é, praticamente, um feudo. Lá embaixo, no pé das montanhas, um mar incrivelmente azul banha a costa. Como permanente sentinela na parte mais alta da montanha, sobre toda a Fiumefredo Feudal, estão as ruínas do Castello della Valle, de 1531.

 

 

 Vista de um pequeno mirante para a parte baixa de Fiumefreddo Bruzzio.

 

 

Vista superior da cidade. Foto tirada da estrada, quando já estávamos indo embora.

 

 

Toda essa galera da foto nasceu em Fiumefreddo Bruzio. Tudo parente da Giovana , que era puro encantamento.

 

Pronto. Origens visitadas e devidamente conhecidas, parte do quilos adquiridos com comidas perdidos em lágrimas. Era hora de partir para outra experiência tão marcante quanto as anteriores.

 

 

O que falta pra você ter tudo o que precisa?

 

Essa parte da viagem me fez pensar muito sobre as últimas escolhas que tenho feito na vida. Uma dessas escolhas foi a mudança do estilo de vida, a mudança com a Giovana para a Europa e, sobretudo, o nosso casamento. 

 

Quando eu e a Giovana decidimos nos casar, ela estava na Áustria e eu no Brasil. A única forma de ficarmos juntos morando fora do país seria se nos casássemos. Assim foi feito. Marcamos a data e decidimos que tudo aconteceria em São Paulo, onde nossa história começou. Como Giovana estava super ocupada com o trabalho novo na Áustria e eu estava à beira de pedir demissão em São Paulo, boa parte dos preparativos ficou sob minha responsabilidade. Site, convites, restaurante, receber os amigos de fora, comida, bebida, alianças.

 

As alianças.

 

Quando chegou o dia de gravar as alianças pintou a dúvida. O que gravar? Senti um baita desconforto em mandar gravar nossos nomes e data do casamento – algo que, naturalmente, jamais esqueceríamos. Eu queria algo mais legal, diferente, eu queria o nosso slogan. E foi no caminho até o local onde as alianças seriam gravadas que eu decidi o que seria. Sem dúvida, meu inconsciente já mandava o recado sobre o estilo de vida que eu deseja para nós dois, sobre a vida que, em muito breve, decidiríamos ter em conjunto. Os indícios de que essa vida faz sentido pra nós se mostraram mais fortes nessa parte da viagem, como já esperávamos.

 

Em Roccarainola, não gastamos dinheiro com hospedagem ou alimentação. Tínhamos uma cama de casal simples, mas confortável. Tínhamos café da manhã, almoço, lanche e jantar todos os dias. E tudo isso foi pago não com dinheiro, mas com o nosso trabalho. Foi lá, na propriedade da Anna, uma italiana cinquentona e bastante durona, que reaprendemos, que nos relembramos das coisas mais óbvias desse mundo. Obviedades que temos estudado e praticado para um novo estilo de vida com menos coisas e mais experiências.

 

Foi lá, plantando, colhendo, compartilhando, cuidando da terra, que confirmamos o que temos acreditado cada vez mais – o universo é pura abundância, a terra é a nossa mãe e nós, de fato, temos tudo o que precisamos. O resto é uma ficção que só funciona porque todo mundo acredita ao mesmo tempo, mas não passa disso - invenções e distrações.

 

 

 We have all we need. Temos tudo o que precisamos - nosso slogan.

 

Nossa rotina na propriedade da Anna era relativamente simples. Acordávamos às sete da manhã, tomávamos café com os nove gatos e quatro cachorros da casa e saíamos para trabalhar até o horário que o sol permitia - geralmente até as duas da tarde, no máximo. Depois disso, tínhamos o dia livre.

 

Em todas as refeições, comíamos apenas o que era produzido ali, na propriedade, ou pela comunidade, que também só cultiva orgânicos. Muito pouco se comprava. Ali, sim, a sustentabilidade vai além do discurso. Aliás, ela passa longe do discurso, ela é, simplesmente, praticada e este é o modo natural de se viver.

 

• NV: se aqueles que mais bradam sobre sustentabilidade realmente cultivassem um estilo de vida sustentável, não haveria com o que a humanidade se preocupar. Quanto mais efusivo for o discurso, mais ele merece nossa desconfiança. Faça a sua parte em vez de esperar que façam por você. 

 

Ficamos impressionados com o tamanho do conhecimento das pessoas sobre a terra, não só sobre plantar, colher e viver da terra, mas de conhecimento sobre as plantas, sobre o que pode ser comido e o que não pode; sobre o que é remédio e para o que serve, sobre a história de uma planta e de outra dentro das diversas modalidades antigas de medicina. Lembrei-me dos tempos em que trabalhei como publicitário para a indústria farmacêutica, da quantidade de texto que já escrevi para empresas de agrotóxicos, em tudo o que eu já ajudei já propagar enquanto publicitário. Notei que às vezes sinto vergonha de explicar minha profissão para algumas pessoas. Notei, também, que não preciso ter vergonha de ter vergonha.

 

• NV: se você sabe que está fazendo merda, o primeiro passo para corrigir as cagadas é reconhecendo-as.

 

 

Viajando nas metáforas.

 

Dependendo do que você quer plantar, buracos rasos não funcionam.

 

Por dois dias seguidos me pediram para limpar canteiros, jardins e muros cobertos por trepadeiras daninhas, enraizadas entre os blocos de concreto. Um trabalho chato, maçante, que machucava minha mão e chegou a me irritar. Porém, o tempo que eu tinha que passar ali, naquela tarefa, a falta de pressa, a falta de deadline para terminar as coisas me permitiam pensar sobre o que eu estava sentindo ali. Comecei a olhar diferente para as minhas emoções - coisa que a gente devia aprender a fazer no dia a dia, mas nem sempre sobra tempo.

 

Eu não poderia encarar aquelas tarefas como um trabalho estressante, simplesmente porque fui eu quem escolheu estar ali, não fui obrigado por ninguém. Espinhos me espetaram incontáveis vezes e, quando me pediram para parar o que eu estava fazendo, a nova função parecia uma pegadinha do malandro. “Preciso que você colete todas as urtigas que encontrar e as separe em cestos diferentes."

 

• NV: tirar da nossa vida o que não presta parece fácil, mas basta que se comece para ver quão difícil é. Observar e tirar de perto de nós o que atrapalha o nosso crescimento é chato e dá trabalho, pode ser até que a gente se machuque, mas é para o bem maior do nosso jardim. Precisamos arrancar o que não nos deixa crescer, sem medo.

 

A urtiga queima e arde bastante; mesmo algumas horas depois que tocou sua pele, continua doendo. Nesse dia, voltei para o meu quarto, coloquei calça, luvas e encarei o trabalho com afinco, principalmente depois que eu soube a razão para aquela colheita ser feita. Anna me contou resumidamente sobre a quantidade de benefícios medicinais das urtigas, me contou sobre a história da planta e seus poderes. Nunca colhi urtigas com tanta dedicação. Nunca tinha colhido urtiga na vida, claro.

 

 

Perdi a conta de quantas árvores plantei. Se você não plantou nenhuma, fala comigo que te passo uns créditos depois ;-) 

 

Giovana aprendeu a fazer geléia com diversas frutas colhidas na propriedade. Aprendeu sobre óleos essenciais, sobre vários tipos de medicinas milenares, entendeu sobre a produção de florais de Bach e coisas desse tipo. Não sei bem o que ela aprendeu, na verdade. Sei que foi muita coisa, estou falando aqui de orelhada. Enquanto a bonita catava camomila no campo, eu estava com a enxada na mão. Sei que ela aprendeu coisas muito valiosas, tanto que já decidiu voltar para aprender mais com a Anna.

 

Vimos vários pôsteres como este na propriedade. Legal demais.

 

Colhendo Camomilas.

 

Camomilas na panela antes de virar óleo essencial.  

 

Sobre o valor de cada grão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Roccarainola foi demais. Plantamos árvores, colhemos frutos, folhas, ervas; montamos cercas de tomates, de uvas, preparamos o solo entre muitas outras coisas e fomos embora. Agradecidos e com vontade de ficar, pegamos o trem de volta para Nápoles. Depois de passar tantos dias no campo próximo de vidas extraordinariamente simples, voltar para a cidade faz pensar um pouquinho. 

 

• NV: talvez as grandes metrópoles nos cause tanto fascínio porque a todo momento elas nos lembram que, enquanto humanos, podemos construir o que quisermos, mesmo que sejamos os maiores construtores de artificialidades.

 

Antes de partimos para Nápoles, uma última atração turística: o Palácio de Caserta - mais um Patrimônio da Humanidade. Um palácio construído pelo rei Carlos de Boubon, de Nápoles, com a declarada pretensão de ser tão grande e belo quanto o palácio de Versailles.

 

Palácio de Caserta, Italia.  Humanos e essa mania de querer um jardim melhor que o do vizinho.

 

De Nápoles, partimos para Viena só pra trocar de roupa e logo partimos para Malta - uma ilha com um idioma bem diferente, que já foi colônia de árabes, italianos, franceses, ingleses. Uma ilha rica tanto em belezas naturais quanto em história. 

 

Talvez eu dedique um post para falar sobre as NVs de Malta. O fato é que não há muitas notas feitas de lá. Decidimos que Malta seriam as férias para descansar das férias. Apenas relaxamos.

 

O SoulBeta volta à sua programação normal. Até a próxima!

 

 

 

 

 

 

 

 

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