Recalculando a rota. Liberdade reportada à frente.

June 28, 2017

Quem rola sua timeline ao menos uma vez por dia já deve ter visto um textão, um vídeo, estudo ou pesquisa sobre as transformações no mercado de trabalho.

 

A mudança de comportamento da geração mimimypslon e sua busca por mais significado; as profissões que vão desaparecer e as que vão surgir; o ideal de se encontrar um real propósito de vida e blá, blá, blá.

 

Não, não é blá, blá, blá. Se tanto se fala sobre um assunto, algo importante deve estar acontecendo.

 

Como estamos nós, de fato, em meio a tantas transformações? Somos, em maioria, ouvintes que se remodelam e se reinventam profissionalmente pensando apenas no holerite? Ou somos agentes das transformações que gostaríamos que acontecessem no mundo?

 

Trabalhamos por grandes mudanças e quebra de paradigmas negativos ou continuamos sendo apenas esforçados e bem sucedidos rat racers? 

 

wickpedia

Rat Race (corrida de ratos) - termo usado para um exercício sem fim, auto-destrutivo ou inútil.

Em uma analogia com a sociedade moderna, muitos ratos em um mesmo labirinto correm

aleatoriamente para não atingirem nenhum objetivo relevante coletiva ou individualmente.

 

Deixar a profissão e abrir um negócio próprio, vender pastel, coxinha, brigadeiro; mudar de carreira, mudar de cidade, mudar de continente; recomeçar tudo. Você deve conhecer ao menos uma história assim, não? Se não, parabéns pra mim e pra você. Eu sou a sua primeira leitura sobre alguém se divorciando da profissão. Quanta honra!

 

Eu conheço várias histórias assim, a grande maioria dentro da minha profissão - a propaganda. E se eu tivesse que arriscar um motivo para esse "fenômeno", diria que tratam-se de pessoas que perceberam que o seu trabalho está bem representado nas ruas do mundo, mostrando seus resultados todos os dia na forma de comportamento humano. 

 

Eu sou um profissional de comunicação. Trabalho nessa indústria desde que comecei a trabalhar. Hoje sinto um pouco de medo do tamanho da responsabilidade que é ser um comunicador profissional. A história da minha profissão versus o mundo que temos hoje, para mim, gera evidências incontestáveis de que o meu receio não é sem fundamento.

 

Somos ferramentas poderosas demais. Nossos clientes pagam caro pela nossa ajuda. E quanto mais lucram, mais ele investem em comunicação. Nos chamam para convencer, para falar por eles, para pensar por eles, para conversar com uma audiência enorme no lugar deles. Somos pagos para criar mensagens que não são nossas, mensagens que aprendemos a potencializar a eficácia sem questionar o resultado.

 

Quando você para e olha para o que está executando todos os dias e tenta entender exatamente o que cada ação pode representar; quando você percebe em qual elo de uma enorme cadeia você se encaixa e qual papel você está desempenhando, você passa a observar melhor o todo.

 

Em vez de olhar apenas para o que está nas suas mãos ou na sua caixa de entrada, você passa a questionar o que acontece em volta das suas ações e quais impactos elas podem ter no mundo e na vida das pessoas.

 

Nosso egocentrismo nos manda fazer o melhor dentro do nosso trabalho, mas não nos deixa avaliar se o que fazemos é o melhor dentro de uma escala de impacto que vai além do sistema meritocrático da empresa ou da nossa vaidade.

 

Minha crise começou com sintomas bem amenos, e foi durante uma fase nova da minha vida. Eu havia acabado de me mudar para São Paulo e trabalhava com marketing para o setor farmacêutico.

 

A espiral de emoções ainda girava lentamente naquela época. Meu trabalho neste setor durou pouco, felizmente. Depois disso, atendi clientes de diversos setores; do mundinho fashion ao agronegócio; do mercado de vídeo-games ao governo federal.

 

Filme criado para um festival publicitário no Canadá há quase 10 anos atrás, quando meus

problemas começavam. Na época eu achava super cool essa relação de amor e ódio.

 

O trabalho, seja no marketing de uma empresa ou em uma agência de propaganda, é bom, é excitante, você aprende muito todo o santo dia. É uma profissão que obriga você a ficar ligado em diferentes assuntos - o que pode até gerar certa ansiedade e uma sensação de que você está sempre se "devendo".

 

Eu diria que é uma profissão que trabalha muito com o sistema de recompensas do cérebro (carece de dados científicos, contribua com este site ;-). Você se lasca bastante, mas depois se sente muito inteligente e importante por ter tido ideias que vão passar na TV, que vão para as ruas. Quem não se vicia com uma droga gostosa assim? E ainda lhe pagam para usá-la.

 

Só que quanto mais eu entendia o sistema e seus mecanismos, mais o giro da espiral ganhava intensidade. Cada vez que o turbilhão me puxava para o fundo, maior era o esforço para emergir e tomar fôlego. Mas aí eu saí dessa ciranda e passei a ver o jogo de fora.

 

 

"Se a princípio uma ideia

não parece insana, então,

ela não merece tanta atenção."

 

 

É difícil assumir para você mesmo que o seu trabalho mais incomoda do que satisfaz. Geralmente, ralamos muito pra chegar aonde chegamos.

 

Mais de 10 anos de profissão, sonhos realizados, uma mini fortuna investida em faculdade, pós-graduação, cursos livres para, de repente, mudar tudo? Quem em sã consciência faz isso?

 

Bom, se a gente pensar bem, só em sã consciência toma-se esse tipo de decisão, porque insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”, disse o tio Einstein.

 

No começo, a gente empurra os sentimentos ruins com a barriga, varre para debaixo do tapete no fim do dia ou vira a cara para os sinais mais legítimos que podemos ter: minha alma estava numa sofrência quase sertanêjica.

 

Já estava faltando aquele viço, aquela alegria nas pernas pra sair da cama pedalando, mas eu, vaidoso que só, teimava em não assumir. Hoje olho para trás e penso "como as pessoas me aguentavam?" Eu era um cara chato e amargo na maior parte do tempo. E estava ficando cada vez mais difícil disfarçar isso. 

 

unsplash.com/@bkotynski

 Quanto mais eu tentava focar no trabalho, mais minha mente se concentrava em fugir pela janela.

Resolvi segui-la e ver aonde ela queria me levar.

 

O sujeito que fez escolhas quinze anos atrás não é o mesmo cara de hoje. Eu mudei, minha forma de enxergar a vida também mudou. Essa mudança trouxe novas percepções e a principal delas foi a de que uma parte considerável do meu trabalho não fazia o menor sentido.

 

E o que eu teria a perder se eu parasse? Na pior hipótese, eu não teria o mesmo dinheiro que eu estava acostumado a ter para continuar fazendo as coisas que eu mais gosto. Como eu já vivi em cenários assim e os conheço bem, se eles voltassem eu os tiraria de letra.

 

 

Decisão sem ação, não é decisão.

 

É bacana observar que quando a gente assume que tem algo errado, quase que automaticamente a gente se dispõe a cuidar do problema. Mas é preciso assumir, mesmo. Verbalizar, dividir com alguém, escrever, falar para o espelho, levar para a terapia.

 

É preciso que você e seu inconsciente entendam que um problema foi identificado e que agora é preciso mudar. Agora que você colocou pra fora, você não tem mais só a sua esposa, seu cachorro ou seu terapeuta segurando a barra com você. O universo ouviu e está contigo, campeão e campeã.

 

Certa noite, eu estava em uma das minhas mini-crises de ansiedade. Eu e minha esposa deitamos para dormir e eu fiquei na posição clássica dos que se vitimizam ao invés de ser o agente da mudança: os olhos fixados no teto, o antebraço sobre a testa e os suspiros lamentativos.

 

– Não sei o que fazer se eu deixar minha profissão. Não sei fazer outra coisa.

 

Conhece a expressão tapa-de-luva? Assim foi a resposta dela:

 

– Gil, você se conhece. Se você acha que tudo o que você pode fazer na vida é só propaganda, cara, de fato você precisa se preocupar.

 

– Glup.

 

A verdade é que a gente sempre dá um jeito.

 

 

A propósito, qual o seu propósito?

 

Em tempos de epidemias de crise existencial, fala-se muito em encontrar o seu propósito de vida.

 

Meses atrás, entre as minhas leituras, descobri um cara chamado Eckart Tole, autor de “O Poder do Agora”. Para mim, esse cara tem a melhor definição de propósito: seu propósito é fazer o melhor que você pode, agora.

 

Para os mais pragmáticos, talvez valha mais o que disse Osho: seu propósito de vida é apenas viver.

 

Arrisco o palpite de que se você juntar o conceito de Tole com o de Osho e assumir que precisa mudar o que está ruim (e mudar), a vida pode ganhar um novo propósito. O seu.

 

Se o futuro é uma derivação do presente, precisamos cuidar com atenção do que fazemos agora. A cada ação que você executa (que esteja alinhada com o seu propósito) coisas mais significativas se desdobram para você e isso vira um ciclo positivo sem fim.

 

Não podemos esperar que o mundo melhore se não formos os agentes das nossas próprias mudanças. Hoje, me esforço para observar se minhas ações estão alinhadas aos meus valores e se o que eu estou fazendo é o melhor que eu poderia estar fazendo agora.

 

Ainda tenho em mim os cacoetes do marketing e da propaganda, claro. E vou permanecer com eles até o fim da vida, provavelmente. A diferença é que agora eu sei o que eu quero e o que eu não quero propagar.

 

Por enquanto, essa é a forma que eu encontrei de trabalhar pelas mudanças que eu espero ver no mundo. É o melhor que eu posso fazer agora.

 

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Recent Posts

October 3, 2017

July 21, 2017

Please reload