Para deixar de lado esse orgulho bobo.

August 24, 2017

Orgulho.

 

Passei a ficar cismadíssimo com essa palavra quando, em uma pequena roda whatzáptica de amigos, eu cometi o erro de dizer que já não mais carrego comigo os orgulhos que costumava trazer na ideia ou na mala, como o orgulho de ser brasileiro, por exemplo.

 

Gosto do Brasil, da minha língua materna, do sol, do clima, do jeito e da ginga tchugudjum. É claro que eu gosto do meu país, pombas! As melhores pessoas que eu conheço estão nele.

 

O que não cabe mais na minha boca e nas minhas formas de raciocinar é o brado “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. Mas não é um problema com o país, mas sim com o uso indiscriminado dessa palavra ordinária e perigosa. Orgulho.

 

Mudando a perspectiva: se eu for na parada do orgulho gay, eu preciso sentir orgulho também? E porque tanto orgulho em ser homossexual? Precisava mesmo de um evento, uma marca chamada PRIDE?

 

Tudo bem, é compreensível que talvez eu faça parte de uma minoria que, por um histórico de problemas recorrentes, precise reivindicar direitos por meio de movimentos populares. Mas precisa, mesmo, falar de orgulho?

 

Se eu for bissexual, eu preciso bradar isso em eventos públicos, com orgulho?

 

E se eu for hétero? Tenho que me orgulhar?

 

Parei de comer carne, devo me orgulhar e criar o movimento do orgulho vegano?

 

Não tenho religião. É importante dizer que eu tenho orgulho de ser ateu ou agnóstico? Quais sentimentos eu despertaria nos meus amigos católicos ou crentes se eles me vissem levantando a bandeira do orgulho ateu? Não seria empatia, concorda?

 

Meu problema é com essa palavra e os conceitos que ela traz consigo. Pra mim, orgulho nunca vai ser bom. E se um movimento ou causa já nasce com orgulho entranhado em seu discurso, já nasceu fadado a criar discórdia. Mas essa é só minha opinião, não tenho orgulho dela, ok? Podemos debater, sem crise.

 

Andei refletindo sobre o orgulho nosso de cada dia e nas suas variadas formas. Eu tinha este texto rabiscado fazia muito tempo, mas só tirei ele da gaveta depois de dois eventos concomitantes: as manifestações "supremacistas" nos Estados Unidos e a leitura de um livro que iniciei essa semana  – Sapiens. Uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari.

 

Harari disseca o Homo sapiens e sua evolução (a minha, a sua, a nossa evolução) de um jeito tão fácil e acessível que qualquer neonazista anencéfalo (desculpe o pleonasmo) entenderia o quanto nós, humanos, somos os bocós deste planeta. Bocós com um complexo de dominância que, desde quase sempre, foi muito bom para nos ajudar a reunir grupos para brigar com outros grupos por algum motivo.

 

Quer sentimento mais ambíguo e perigoso do que este?

 

Com um olhar simplório sobre os significados da palavra orgulho, já fica fácil perceber o quanto este é um sentimento pouco agregador. Alguém, por favor, me convença de que, dentro das possíveis interpretações sobre o sentimento de orgulho, alguma pode ser benéfica pra nós enquanto espécie que se socializa desde a idade da pedra. 

 

Parada do orgulho LGBT, orgulho de ser hétero, católico, ateu, protestante; orgulho de ser negro, branco, casado, solteiro. Orgulho do meu Botafogo! Da-lhe fogão! Não, péra.

 

Parece okay expressar nossos orgulhos, mesmo que sejam por coisas que não merecem orgulho algum. Mas não, orgulho nenhum é legal por um detalhe bem sutil: quando o expomos, expressamos, no mínimo, a intenção de sermos superiores. 

 

Por um tipo de orgulho, bombas explodem em frente a mesquitas, dentro de metrôs. Por um outro tipo de orgulho, homossexuais, torcedores, travestis são espancados até morrer, muros são construídos colocando sociedades cada vez mais distantes do bom senso, da empatia, da compaixão.

 

Todo mundo tem o direito de ser feliz pelo lugar que vive, por ser quem é. Tem que haver alegria e contentamento pelas batalhas que a gente vence, mas é só isso: sejamos gratos e felizes. Não precisamos esfregar na cara das pessoas o quanto nos achamos bons ou melhores, como se estivéssemos tentando convencê-las a trocar de time. 

 

Bandeiras foram inventadas com um único propósito: identificar exércitos. Vale a pena prestar atenção ao simples ato de se levantar uma. Pode ser que você esteja só criando discórdia.

 

Eu não sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor. Com amor, talvez. Mas faz algum tempo que passei a achar uma grande bobagem sentir orgulho por uma delimitação geográfica que convencionou-se chamar de país. Orgulho de um país? Muito abstrato e inútil. O planeta, o universo, a vida seriam muito mais dignos de algum orgulho do que linhas que só servem para separar.

 

A Novilíngua de George Orwell, no livro “1984” cortava palavras do idioma para reduzir o escopo do pensamento da sociedade. E se fizéssemos o mesmo, porém, reduzindo apenas as possibilidades de pensamentos destrutivos? Faríamos uma pré- seleção com as palavras que criam conceitos pouco inteligentes e depois submeteríamos a um comitê anti-estupidez.

 

Começaríamos cortando palavras que estimulem um indivíduo a se sentir melhor que outro. Quem sabe já não começamos agora deixando de lado esse tal de orgulho que não serve para absolutamente nada? Faça amor, faça festa, faça como e do jeito que quiser, mas sem orgulho, por favor.

 

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