A contradição nossa de cada dia.

August 31, 2017

  

Eu devo assinar, em média, uma petição por mês, talvez mais. Salvo golfinhos, tartarugas em Galápagos, genitálias femininas em tribos africanas, elefantes, ajudo tudo e a todos que posso. Só me custa alguns cliques, então, por que não?

 

Mas essa semana eu aumentei um pouco a minha média de contribuição. Já assinei duas dessas petições que tentam derrubar a PL 8107. E isso me lembrou uma história curiosa.

 

Ontem fui com a minha mulher no centro da cidade e compramos uma câmera nova. Já tínhamos uma que nos atendia bem, mas a nova tinha mais funcionalidades e a gente gosta de ficar por dentro das novidades.

 

Saindo da loja, encontramos um velho amigo meu que eu não via há mais de 10 anos. Ele tinha acabado de sair da concessionária, tinha trocado de carro. Era uma alegria só.

 

Começamos a conversar e eu trouxe à tona o tal projeto de lei. Ele, um cara super engajado e consciente sobre causas sociais, assim que eu falei da petição ele sacou o celular e, blau, assinou ali mesmo. Guardou o telefone e continuamos a prosa.

 

Papo vai, papo vem, nossas mulheres entram em uma dessas lojas-design-armadilha. Essas cheias de penduricalhos engenhosos que a gente não resiste e sai comprando. Tudo por mais praticidade e pelo lado hype da vida doméstica.

 

Eu e o meu brother deixamos as duas na loja, sentamos em um café ali perto e ficamos de papo. Ele me falou do carro, disse que agora consegue trocar todo ano pra perder menos grana na desvalorização.

 

Falou do casamento, das aventuras enquanto publicitário. Contou pra mim que acabou de ganhar um prêmio e que fez um dos clientes da agência aumentar as vendas e o valor da empresa inacreditavelmente. Disse que vai ser promovido já, já. 

 

Gostei de ver o sucesso de uma pessoa que gosto tanto. Ele agora está construindo uma segunda casa. Disse que vai mobiliá-la e colocar no Airbnb. Disse que dá pra fazer uma baita grana. Vai decorar só com coisa fina e alugar pra gente rica. 

 

As mulheres voltaram, nos despedimos e, no fim da conversa, acabamos marcando um churrascão na casa dele. Preciso assumir que não conheço ninguém que mande tão bem na churrasqueira quanto esse cara.

 

Fomos cada um para o seu lado, felizes, pessoas de bem e bem intencionadas, que não fazem mal a ninguém a sempre assinam petições.  E neste momento eu pergunto a você: este conto (e é só um conto mesmo) tem alguma semelhança com a realidade?

 

Eu e meu amigo somos dois caras que pressionam o presidente e as empresas para não destruírem a Amazônia e queremos que a PL 8107 acabe. Mas, na verdade, a gente é quase farinha do mesmo saco que eles.

 

Eu, ele, o presidente, os donos das empresas que vão minerar, explorar, alimentar gado e cortar madeira, a gente não vive sem o nosso conforto e capricho diários; todos esses caprichos ilustrados na história acima e muitos outros mais.

 

Ninguém quer que árvores caiam, nem o presidente quer, aposto. O problema é que nós estamos aqui, gerando demanda. Nós somos o final da cadeia de produção de tudo o que vem de lá, somos nós quem compramos. Eles só fornecem e esse fornecimento é o negócio deles. 

 

Mineração, madeira e agropecuária. Qual ser humano neste mundo consegue viver sem ao menos uma dessas atividades? Nem índio consegue. Só que índio não tem a casa cheia de penduricalhos oriundos da mineração e extração de petróleo, churrasqueira para assar boi engordado em solo amazônico e carro do ano a combustão.  

 

Não dá pra ser ingênuo ao ponto de achar que a culpa é do presidente. Ele tem como barrar essa vergonha, óbvio. Mas a verdade é que ele está só atendendo à demanda. À demanda que eu, meu amigo e nossas mulheres geramos. 

 

O ser humano é um bicho contraditório. Somos os predadores mais letais e destruidores que já habitou este planeta*. Mas também somos racionais e inteligentes. Então, por que não começar a fazer jus a essas características? Em vias práticas, por que não consumir menos, já que é isso que pode garantir a nossa paz e a de tantas outras espécies?

  

 

Somos gentis, somos legais, somos uns queridos que só querem fazer o bem. Mas somos contraditórios e incoerentes. Entretanto, vale repetir: não somos assim por natureza, somos apenas fáceis de manipular. Porque temos algo que é exclusividade nossa: um ego querendo sempre mais.

 

Outro grande problema nosso de cada dia tem a ver com esse ego fácil de manipular: quem domina a arte de enganar ganha prêmio, ganha aplauso, vira líder poderoso, vira até presidente.

 

Assim, torna-se corriqueiro e natural a gente achar que o errado é certo e vice-versa. Assim, fica tudo de cabeça pra baixo e quase ninguém repara. Torna-se natural assinar petições e achar que já estamos fazendo a nossa parte e que vai ficar tudo bem.

 

Não vai ficar tudo bem até prestarmos atenção às nossas contradições.

 

 

Credito da foto: Mallory Johndrow.

* Sapiens: uma breve história da humanidade, Yuval Harari.

 

 

 

 

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