Revisitando clichês.

October 3, 2017

Meu ano novo começou no último dia 28. Meu ano 36 depois de Cristo.

 

Peguei umas anotações velhas no bloco de notas do telefone e transformei neste texto. É uma reflexão sobre alguns dos muitos clichês que acompanham a nossa vida e que, sem que a gente perceba, moldam o nosso sistema de crenças. Sistema este que molda a forma como pensamos e, por consequência, como agimos na vida.

 

Para não tomar muito do seu tempo, selecionei só as anotações que condizem mais com essa minha fase da vida; só os  ditados que, ao meu ver, são grandes bullshitagens humanas.

 

 

Mente vazia, oficina do diabo.

Mente sempre ocupada pode ser um inferno. 

 

Como se explica tanta gente com a mente sempre ocupada vivendo um inferno existencial? Esvaziar a mente é benéfico, a gente sabe disso. Permitir-se não fazer nada por um dia inteiro, uma semana, um ano e não cobrar-se por isso; meditar e escapar do cativeiro da ansiedade que nos obriga a estar sempre produzindo. Quando paramos e observamos os próprios pensamentos, a centelha do autoconhecimento faísca.

 

Talvez, a pessoa que criou esse ditado não soube lidar com os próprios pensamentos sozinha. Talvez tenha presenciado alguém com muito tempo para pensar e que, por pensar demais, acabou dando tilt. Ou talvez tenha sido apenas um patrão, pai de família, ditador ou líder religioso querendo que todo mundo trabalhasse mais e pensasse menos. Pensar não gerava riqueza, o trabalho, sim. Mas o mundo agora é outro, concorda?

 

Quem não consegue parar e esvaziar a mente é refém dos próprios pensamentos, do seu próprio sistema de crenças; é conduzido como a boiada no pasto, como as ovelhas por seus pastores. E se alguém lhe disser que esvaziar a mente é impossível, não dê ouvidos. Certamente essa pessoa sequer tentou ou nunca conseguiu fazê-lo.

 

 

Tempo é dinheiro.

Ambos são convenções.

 

A declaração universal dos direitos humanos, o sistema financeiro, a contagem do tempo, o fuso entre países, a moda, a moeda, os mitos religiosos, tudo são convenções e regras de um jogo inventado por homens do passado, um jogo que “topamos” jogar compulsoriamente no dia em que nascemos. Mas felizmente crescemos e passamos a ter a chance de olhar diferente para a vida. Se meu tempo vale apenas dinheiro, eu me tornei um escravo de convenções que eu não assinei.

 

Se calcularmos o quanto precisamos para viver agora, para garantir a aposentadoria, as reservas de emergência, o lazer da família, se colocarmos no papel o quanto precisamos para ter a vida que queremos, saberemos quanto vale o tempo que precisa ser dedicado ao trabalho. Se houver excedente, ótimo, não precisamos perder mais tempo transformando-o em uma constante moeda de troca. 

 

 

A vida é curta.

Slogan da ansiedade.

 

A vida humana tem o tempo que precisa ter. Assim como a da borboleta, do sapo, do elefante, do cachorro, do boi. Infelizmente, alguns animais realmente têm a vida encurtada, geralmente em função das vontades do homem. Mas nós não, nossa vida tem a medida certa para ser valiosa na medida.

 

Sempre que ouvimos que “a vida é muito curta” a arma da ansiedade é engatilhada, uma arma boa para vender pacotes turísticos, reservas em restaurantes caros; uma arma com mira acurada para a cobiça que nos apressa em acumular riqueza e patrimônio e nos faz esquecer de viver o simples. A ansiedade é um gatilho que nos transforma em corrompidos pelo tempo e pelo dinheiro. A vida não é curta, ela é perfeita.

 

 

O trabalho enobrece o homem.

Diziam os nobres aos proletários.

 

Eu diria que o sentimento de dever cumprido enobrece o homem. Estamos vivendo uma fase em que a pessoas olham para os seus trabalhos buscando mais sentido no que fazem. Chegar em casa depois de um dia inteiro de atividades e não entender exatamente o que se fez não parece enobrecedor, parece cansativo. Seria, então, mais correto dizer que o cansaço enobrece? 

 

Um trabalho que faz sentido para o homem e para o mundo, sim, enobrece a alma. Trabalho pelo trabalho é apenas energia mecânica e isso não me parece muito nobre. Penso que antigamente as profissões eram mais dignas. Um carpinteiro, um ferreiro ou um agricultor enxergava e entendia bem a atividade-fim do seu trabalho. E nem precisavam pensar muito sobre isso.

 

No nosso sistema atual, onde geralmente somos apenas peças de uma engrenagem maior, meu trabalho tem um efeito muito maior no mundo e nas pessoas do que apenas o resultado que eu enxergo. Muitas vezes, isso não é só vazio de "nobreza", mas me chateia.

 

 

Desejo que você possa parar um pouco.

No último ano eu parei para olhar para dentro e vi uma casa desarrumada e sem muito sentido. É uma inocência quase pueril achar que vamos ser plenos de sentido na vida, sendo que a vida em si é um grande mistério. Mas eu preciso me enganar de modo que eu me convença de que estou agindo para o bem, para ser melhor.

 

O modo como eu me enganava antes não estava me convencendo mais. Por isso eu parei, esvaziei, limpei a casa e agora, sim, estou escolhendo a dedo tudo o que entra. Se não faz sentido pra mim, não faz sentido ocupar espaço.

 

Tire um tempo para se ouvir. 

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