O grito que precede a paz.

December 20, 2017

Você já nasceu com uma eloquência incrível. Um comunicador nato. Seu primeiro proclame propagava a todos à sua volta: ajudem-me aqui! Ficou muito desconfortável de repente, não consigo respirar! O médico, experiente, entende sua demanda. Sua mãe também entende e a atende dali para sempre. Você demanda atenção, carinho, acolhimento.

E vem a jornada do crescimento. Você começa a se desenvolver. Vêm as capacidades motoras, depois as cognitivas. Vem a criatividade e você se torna cada vez mais demandante e altamente capaz de conquistar as coisas que deseja. E suas demandas deixam de ser apenas biológicas e passam a ter outra natureza, uma natureza peculiar à sua espécie. Você faz manha, melindres, aprende a mentir e a persuadir. “É a criatividade se desenvolvendo” - dizem os especialistas. “A fase das pequenas mentiras é quando a criança está desenvolvendo sua capacidade de criar, imaginar, inventar.” E você inventa cada vez mais, que brilhantismo para criar histórias. Sempre para saciar suas vontades: carinho, acolhimento, aceitação, o regozijo de um elogio. Valores indispensáveis daqui pra frente. E você segue a sua saga vida adentro. Os desejos mudam, novos aparecem, responsabilidades surgem. É a vida adulta que chega. Mas sua essência não muda. Você ainda, por vezes, reclama do desconforto, ludibria alguém, faz manha; influencia, persuade, bate o pé pra ter o que quer. Andaram ensinando a você que o céu é o limite. “Você consegue!” “Você pode!” “O mundo é seu.” E você só quer ganhar o mundo, o topo dele. Uma vida de prazeres infinitos, alegrias desmedidas à custa de... não importa às custas de quê. Sempre lhe ensinaram que você tem que ser feliz, a qualquer custo. Mesmo que isso custe caro, mesmo que custe sua saúde, horas dos seus dias em funções que não fazem sentido, mas que fazem você se sentir acolhido, pertencente ao grupo que lhe reconhece como igual. Você é igual. Todos somos iguais. Desconfortavelmente iguais.

Até que, de repente, uma luz se acende novamente. Dessa vez sem médico, sem alarde e sem colo e compreensão de mãe. E você meio que não sabe se agora é nascimento ou morte. Você só sabe que está insuportavelmente desconfortável de novo, como lá no começo. Dá vontade de gritar, de chorar. E você pode, se quiser. Só que de agora em diante é sem manhas e mentiras. Agora você precisa das verdades. É desconfortavel, mas é para a sua própria paz.

 

 

Foto: Annie Spratt.

 

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