Confinamento precoce. (parte 1)

A morte tentou fazer surpresa. Até surpreendeu, mas tomou um olé do zagueiro na cara do gol.

Ela ficaria viúva aos 31. Eu, aos 37, estava de saída, mas dei meia-volta e fiquei.

Se foram os sedativos que me fizeram viajar por outra realidade, não sei dizer. O que posso afirmar é que minha consciência visitou outro mundo durante o coma.

Foi lá que o drible aconteceu.

Lá, eu também estava em um hospital. Um hospital bem diferente. Tentei fugir várias vezes; tentei até conseguir.

Quando abri os olhos, de volta a esse mundo, a realidade era, de novo, uma UTI.

Não fazia sentido estar ali se eu já tinha conseguido fugir.

Durante o sono do coma, meu corpo estava no hospital São José, de Lisboa, onde ela e amigos aguardavam a surpresa - por mais contraditório que seja aguardar uma surpresa.

Minha consciência (a depender da crença, dá pra chamar de alma, mente, espírito, qualquer dessas abstrações, científicas ou quânticas) foi passear em outro mundo.

Quando acordei na UTI, demorei pra compreender porquê eu estava ali.

Nenhum conhecido, um país diferente, sem minhas roupas, sem conseguir me mexer, sem ela - a única pessoa (pensava eu) capaz de me explicar tudo aquilo.

Adormecemos abraçados na noite anterior. Não fazia sentido acordar ali.

Um pouco da viagem:

Eu tinha aprendido a também andar nas paredes, como todo mundo naquele hospital.

A gravidade funcionava diferente ali. Funcionava conforme a gente quisesse, na verdade. O chão era qualquer superfície.

Houve uma ocasião em que passei muitas horas sentado com as pernas pra fora em uma claraboia, olhando pra baixo, no topo de um prédio de cinco andares.

Uma enfermeira levantou uma plaquinha feita de papelão onde eu vi os números escritos com canetão azul: “3h42”

– esse é o tempo que você está aí. – disse ela, com o tom bastante irônico.

Fazia, realmente, muito tempo que eu estava ali, criando coragem para me por de pé na perpendicular e também caminhar na parede.

Médicos, enfermeiros e auxiliares caminhavam com naturalidade pelas quatro paredes da claraboia; entravam e saíam por janelas adaptadas, que também serviam de porta.

Um médico sentou-se ao meu lado, colocou a mão em meu ombro e falou perto do meu ouvido:

– Seu cérebro está te atrapalhando a pensar.

Eu estava condicionado a uma realidade cujo sistema de locomoção não funcionava ali.

Eu tentava criar coragem para me levantar e fazer de chão uma parede onde muitos já caminhavam naturalmente.

Eu já estava começando a me sentir ridículo.

A prova de que era possível estava diante dos meus olhos, mas minha mente parecia cega.

. . .

Minha fuga era para me encontrar com ela, Giovana, minha esposa.

Durante todo o tempo em que estive deitado naquela enfermaria, ela batia com a ponta das unhas atrás de num vitral que separava a enfermaria de um corredor comum do hospital.

Ela me chamava a metros da minha cama, mas longe, bem longe do meu alcance.

Sua voz era abafada pela distância, mas era urgente, doce e tinha sorriso.

A voz de quem tinha uma boa programação para o fim de tarde.

Foram inúmeras tentativas de fuga. Descobri passagens secretas no hospital, conheci pessoas, fiz amizades e até inimizades.

Aprendi a conviver com uma força gravitacional diferente, aprendi a também andar em qualquer superfície.

Fugi e encontrei Giovana ainda calma depois de tanta espera.

Nos encontramos próximo da movimentada Rua Rosa.

Dali, fomos comer no Mercado da Ribeira e depois fomos pra casa de metrô. A estação Cais Sodré ficava logo ali.

Compramos uma garrafa de vinho barato, saltamos na estação Restauradores. Era a nossa estação.

Fomos caminhando lentamente pelas ladeiras e vielas mal iluminadas de Lisboa.

Enquanto caminhávamos pela noite amarelada pelos postes de luz fraca, o vinho descia no gargalo.

Terrível ideia a de beber desse jeito. “Foi isso que me levou a um hospital” – pensei logo que abri os olhos.

Era muito pra mim. Eu tinha conseguido fugir de um hospital e abri os olhos em outro hospital, sozinho e paralisado.

Era demais pra minha cabeça.

Fechei os olhos e adormeci. Era tudo e só o que eu podia fazer: dormir.

(Continua.)

Para saber como eu estou hoje, leia também: Aprenda a reclamar

@gil

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