Confinamento precoce. (parte 2)

May 7, 2020

Já era possível girar a cabeça. No semi-intensivo, fui colocado próximo a uma janela da enfermaria.

A posição da cama me dava um ângulo que fazia a ponta dos telhados lá fora parecer uma pintura. Um quadro hiperrealista emoldurado pela janela.
 

 
Os tons de laranja das telhas novas, ainda sem o musgo natural do tempo, e as gruas das construções anunciavam tempos de renovação na envelhecida Lisboa.

A publicidade para o turismo trouxe a especulação imobiliária e as reformas por toda a cidade. Era o viço econômico que se espera de uma capital europeia voltando depois de décadas.

Uma semana antes da transferência para o semi-intensivo, eu ainda estava entubado e desacordado.

“Ele ainda está aqui e está lutando pra ficar” – falou Martina, depois de uma sessão de ThetaHealing. Minha saga durante o coma parece ter sido “sentida”.

A essa altura, já havia um grupo de WhatsApp com amigos orando em quatro continentes. Meu nome já rodava em centros espíritas, cultos evangélicos e bingos de caridade.

Numa régua de popularidade, meu índice é negativo, mas bastou Giovana contar para um amigo próximo, que brotou conhecido chocado com a notícia pra todo lado.

Amigo de infância, dos tempos de escola, amigo de pique-esconde na rua até anoitecer, amigo de roda de baseado.

É, amigo, notícia ruim roda depressa igual “perna de grilo” .

Todos incrédulos com a possibilidade de um pendurar de chuteiras precoce. Todo mundo rezando por mais acréscimos.

E não é que, aos 45 do segundo tempo, o zagueiro mais sem habilidade cisma de driblar o atacante na frente do gol?

Improvável, mas o drible saiu.

Morte pra um lado, foice pro outro. Eu pro lado de cá, no time dos vivos.

Abri os olhos, sorri, atendi pelo meu nome, reconheci pessoas. Isso foi o que eu fiquei sabendo muito tempo depois. Na minha lembrança, a primeira vez que abri os olhos, não vi nenhum conhecido por perto.

– “Isso é um milagre, espero que saibam disso” – disse a chefe das enfermeiras.

Veio a transferência pra perto da janela, vieram as sessões de Johrey, de Barras de Acesso, mais ThetaHealing, Reiki, teve unção de padre, teve macumba.

Saí dessa devendo pra todas as religiões. Devo e não nego, só não sei como pagar.
Nos primeiros dias, a realidade foi bem desconfortável: não poder falar foi assustador. Pedi papel e caneta, mas não havia coordenação motora.

Eu queria contar as histórias que eu tinha “vivenciado”. Queria pedir água. A sonda nasogástrica que eu estava usando era para que nada entrasse na boca. Nem água.

As “vivências” da mente foram tão reais, que eu estava louco pra contar. E quando eu comecei a contar, eu parecia mesmo louco. Um louco com seus delírios e histórias impossíveis.

Histórias mais tarde contadas em um dialeto que envolvia pouco as cordas vocais e quase nada do diafragma. Era impossível falar com clareza.

Girei o pescoço para a direita, tirando o olhar dos telhados e voltando à realidade da enfermaria. Vi Giovana e sua mãe entrando para mais uma visita.

A cor de cabelo que Giovana usava parecia pensada para combinar com a pintura. Estava linda, mas olhar para ela me enchia de tristeza.

– Como está a criança? – perguntei a minha sogra.

Fazer aquela pergunta foi difícil não só porque era difícil falar, mas porque foi muito penoso aceitar que a minha esposa tinha me trocado justo naquele momento.

Em um só golpe, perdi tudo: minha identidade, meus movimentos, minha vida como eu conhecia antes de abrir os olhos.


 

 


(Continua ...)

para ler a primeira parte

 

Photo by Liam McKay on Unsplash
 

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