Confinamento precoce. (parte 3)

May 13, 2020

Ela aproximou o telefone e me deixou ouvir a mensagem do Bruno.

Sem que eu notasse, uma teia de conexões começou a tecer uma trama de memórias.

O primeiro áudio parecia escolhido a dedo, mas era um fortuito acaso.

Bruno é âncora para lembranças de diferentes papéis sociais que eu desempenhava.

Amigo pessoal, parceiro nos trabalhos da faculdade, colega de profissão. Eram muitas conexões a partir da mesma pessoa.

Chegamos a trabalhar juntos em São Paulo. E não era a primeira vez na mesma agência de publicidade.

Giovana colocava, no máximo, dois áudios de amigos por dia.

Assim ela “injetava“ doses de resiliência sem sobrecarregar um cérebro já em déficit de atividade.

 

 

A primeira crise de ansiedade tinha acontecido por causa de uma dessas sobrecargas: disseram que música poderia ser positivo. Era cedo demais pra isso.

Na UCV (Unidade Cérebro Vascular), ainda tentavam diagnosticar as causas de tamanho estrago. Sem sucesso. Fui transferido sem saber o que me deixou assim.

Foi ali que passei por uma triagem antes da quarta transferência, dessa vez, para uma reabilitação.

Eram bem menos delírios, mas persistia a dificuldade de distinguir fantasia de realidade.

Eu tinha convicção de que o hospital com gravidade diferente existia.

A máquina de barbear e o cortador de unha sendo usados em mim pelas mãos do meu pai não era imaginação.

Uma conversa com duração maior que um minuto seria tão impossível quanto ele entrar em um avião para mais de dez horas de voo.

Mas não era imaginação. Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo.

Meus pais tinham voado pela primeira vez e estavam em Lisboa por minha causa.

Meu pai entrou no avião e agora fazia minha barba enquanto conversávamos amenidades.

Não era imaginação.

Minha mãe ali não era tanta supresa. Mães atravessam oceanos a nado. Voando, mesmo que pela primeira vez, era moleza pra ela.

Grandes amigos organizaram uma vaquinha virtual. Foi o que tornou concreta a presença dos meus pais. Mais uma injeção de ânimo.

Que sorte a minha. Em poucos dias seria eu o guia turístico a apresentar Lisboa para os meus pais. Mas eles fizeram um turismo bem diferente do que eu esperava.

Voltaram para o Brasil um mês depois e a minha ficha começou a cair. Eu disse “tchau” na mesma posição que eu disse “oi”.


 


(continua.)


 

para ler a primeira parte

para ler a segunda parte

 

3D by Hal Gatewood

 

 

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