Confinamento precoce. (parte 4)

May 19, 2020

– Vladimir!

Vladimir cruzava a enfermaria a passos ligeiros e compridos. Ficou visivelmente satisfeito ao perceber que eu sabia seu nome.

– Vladimir!

Interrompeu abruptamente o trajeto e ajudou-me com boa vontade em cada movimento.

Podes abrir, faz favor - falei com dificuldade, já aderindo ao português lusitano.

Estendi a mão com o pacote de biscoitos ainda lacrado.

Desistir de abrir o pacotinho não me doía o brio. Seria impossível devido à falta dos movimentos finos nas mãos. Tê-lo apanhado na mesa de cabeceira já era o feito do mês.

No pacotinho só tinha três biscoitos Maria, mas valia a missão.

Pela primeira vez, me ocorreu que minha vida nunca mais seria a mesma. Tarefas simples demandariam planejamento e atenção plena.

A missão era quase impossível: pegar o pacote com as valiosas três unidades de biscoitos sem derrubar nada da mesa de cabeceira.

Nem fome eu tinha para tamanho esforço, mas decidi ser uma questão de dignidade. (Se é que alguém usando fraldas pode falar em dignidade.)

Era só esticar o braço direito, trazer a mesa pra perto e passar a mão entre a garrafa d’água e o copo com a escova de dente.

Estiquei o braço, me alonguei quase deslocando o ombro, estiquei os dedos, estalou-se o cotovelo, mão aberta, como se fosse ela a locomotiva do braço. Dedos esticados e em movimentos alternados, como se isso ampliasse minha elasticidade. O tremor era tão grande que o braço fazia círculos no ar. Respiração presa. Língua entre os dentes. Olhos cerrados, estica mais, mais um pouco.

Desisto.


Relaxo na cama.


Respiro ofegante.



Tento de novo.


Tudo de novo (menos o estalo).


Dessa vez, puxo mais ar no meio da operação. Prendo a respiração. Solto. Volto a prender.


Estico.


O braço já está pesado.


Desisto.


Respiro ofegante.

Percebo três senhores das camas à frente e ao lado na torcida. Um deles chegou a sentar-se e não escondia a frustração com o meu insucesso.

Apertei a campainha e em menos de um minuto veio uma auxiliar. Contrariando a expectativa da torcida, que pensava que eu pediria pelo pacotinho, pedi apenas água.

A auxiliar pegou a pequena garrafa e posicionou o canudinho. Dei cinco sugadas e agradeci. Antes de partir, ela aproximou a mesa de cabeceira. Delicada e gentilmente, ela fez parte do trabalho pra mim.

Agora, bastava esgueirar a mão em um exímio trabalho de coordenação motora.

Feito. Consegui! Eu consegui! E sem derrubar nada!

Um velho aplaudiu. Outro sorria. Outro voltava-se para a tv, para a bem menos interessante programação matutina da tv portuguesa.

Meu feito era orgulho de todos.

 

Como podia um rapaz tão novo em meio à tantos fins-de-vida.

O senhor da cama à frente não sabia, mas dois já tinham partido naquela mesma cama.

Vi duas pessoas sucumbirem. As vi sendo levadas como se nada importante houvesse ali. De fato, não havia. Eram só corpos desligados.

Assistentes sociais e médicos temiam pela minha integridade mental naquele lugar. Logo viria mais uma transferência.

 


Consegui pegar o pacotinho!

A sensação de vitória e êxtase rapidamente se transformaram em frustração: eu não conseguiria abrir o pacote .

Felizmente, aquele auxiliar estava passando e eu já tinha ouvido o nome dele.

Saber os nomes dos profissionais ajudava muito! Isso fazia com que eles não se fizessem de surdos e atendessem. Eu sabia o nome de todos.

– Vladimir!

Ele abriu o pacotinho e partiu. Descobri ali que tirar um biscoito do pacote é bem mais complexo do que se imagina. Pra não dizer “impossível”.

 

 



(Continua.)

 

 

Para ler a terceira parte

 

 

@gil

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