Confinamento precoce. (parte 4.5)

May 24, 2020

O retrato-falado do médico sairia com detalhes tão claros quanto o branco do seu jaleco.

Pelo jeito que se posicionou e falava comigo, parecia fazer questão de ter seu rosto lembrado.

Agachado, em frente à cadeira de rodas, me olhava com uma seriedade triste no semblante.

Com o braço direito apoiado sobre minhas pernas, repetiu a frase até que cada palavra fosse assimilada.

“Vai demorar,” ele dizia.

Eu fazia que sim com a cabeça.

“Vai demorar muito!”

Assenti novamente. Ele me fazia enxergar marca-texto no que dizia.


“Pode ser que demore mais do que você imagina”.

E foi-se embora com ar de desaprovação.

Eu só fingia entender.

Ele sabia; sabia da minha arrogância diante do problema.

Nunca mais o vi.

Em nenhum sonho, em nenhum dos hospitais que passei, nessa ou noutras realidades.

Nunca mais o vi.

Continuo sem saber se ele existe ou se só existiu o suficiente pra me fazer brigar com a memória todos os dias.

Eu reconheci a sensação ao vê-lo partir. Era uma certeza de que eu nunca mais o veria.

Mesmo ainda sem saber porquê, eu sabia que precisaria revê-lo. Era uma dessas sensações que só se sente em sonhos.

Não existe palavra que defina.

Em algum idioma deve haver um verbete cuja definição é a ”sensação de ver alguém partir sabendo que desejará ver esse alguém novamente para perguntar algo que ainda não se sabe o que é”.

Sensações que só em sonhos se entendem.

Continuo sem a palavra, mas já sei qual seria a pergunta, caso o reencontrasse:

“Quanto tempo vai demorar?”

Mesmo em sonho, duvido que me responderia. Essa é uma pergunta da qual todos os médicos se esquivam.

Considerando que ele era mais um personagem das minhas viagens, por que ignorar o que ele dizia?

Ele tinha a resposta antes de eu ter a pergunta.

Eu é que continuo ignorando aquela realidade.

 

 

 


 

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