Confinamento precoce. (parte 4.5)

O retrato-falado do médico sairia com detalhes tão claros quanto o branco do seu jaleco. Pelo jeito que se posicionou e falava comigo, parecia fazer questão de ter seu rosto lembrado. Agachado, em frente à cadeira de rodas, me olhava com uma seriedade triste no semblante. Com o braço direito apoiado sobre minhas pernas, repetiu a frase até que cada palavra fosse assimilada. “Vai demorar,” ele dizia. Eu fazia que sim com a cabeça. “Vai demorar muito!” Assenti novamente. Ele me fazia enxergar marca-texto no que dizia. “Pode ser que demore mais do que você imagina”. E foi-se embora com ar de desaprovação. Eu só fingia entender. Ele sabia; sabia da minha arrogância diante do problema. Nunca mais o vi. Em nenhum sonho, em nenhum dos hospitais que passei, nessa ou noutras realidades. Nunca mais o vi. Continuo sem saber se ele existe ou se só existiu o suficiente pra me fazer brigar com a memória todos os dias. Eu reconheci a sensação ao vê-lo partir. Era uma certeza de que eu nunca mais o veria. Mesmo ainda sem saber porquê, eu sabia que precisaria revê-lo. Era uma dessas sensações que só se sente em sonhos. Não existe palavra que defina. Em algum idioma deve haver um verbete cuja definição é a ”sensação de ver alguém partir sabendo que desejará ver esse alguém novamente para perguntar algo que ainda não se sabe o que é”. Sensações que só em sonhos se entendem. Continuo sem a palavra, mas já sei qual seria a pergunta, caso o reencontrasse: “Quanto tempo vai demorar?” Mesmo em sonho, duvido que me responderia. Essa é uma pergunta da qual todos os médicos se esquivam. Considerando que ele era mais um personagem das minhas viagens, por que ignorar o que ele dizia? Ele tinha a resposta antes de eu ter a pergunta. Eu é que continuo ignorando aquela realidade.

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