Confinamento precoce (parte 5)


Um motorista de Uber aceitou a corrida que o faria queimar as alheiras e pastéis de nata. Vez ou outra, esses motoristas de aplicativo pegam pesado para faturar mais. Aquela madrugada de quinta para sexta conta uma história assim. Era o início de uma greve nos hospitals de Lisboa. Justo naquela madrugada, uma forte dor de cabeça me acordou perto das 5h da manhã. Eu já não andava mais. O motorista e a Giovana carregaram 85kg por uns 30 metros - bastante chão quando se carrega um peso quase-morto.

A louça do almoço de quinta ainda estava na pia. Larguei tudo lá quando a espuma começou a mudar de cor. O branco ficou cinza, depois azul. As paredes também se escureceram. Larguei o prato. Apertei os olhos. Tentei chamar Giovana, a voz não saía. Uma vertiginosa tonteira fez eu ir escorando nas paredes até a sala, onde ela atendia uma cliente por video-conferência. A voz, de novo, não saiu. Chamei-a com um gesto e voltei pelo corredor, me escorando, dessa vez na direção do quarto. Giovana veio logo atrás. Já sentado na cama, minha cabeça fez a parede tremer. A tonteira me fazia girar feito um boneco João-bobo retornando ao centro. Passei a mão no telefone e usei o pouco que restava da fala com a psicóloga. Ela recomendou um hospital, eu escolhi esperar um pouco mais. Era o primeiro de uma sequência de erros. Fui ao hospital e os sintomas não eram mais tão evidentes. Voltei pra casa à pé, sob o efeito de um paracetamol. Adormeci. Mais um erro. Uma forte dor de cabeça me acordou perto das 5 da manhã.

Giovana e o motorista me carregaram e, no hospital, o primeiro role de cadeira de rodas até a sala de espera.

Espera.

Espera.

Espera. Foram quase três horas até o primeiro exame de imagem. Mais um erro.

Detectaram o sangramento no tronco-cerebral. As chances eram mínimas.

Mas uma chance é sempre uma chance, por menor que ela seja.

(Continua.)

Photo by Owen Beard on Unsplash

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