Confinamento precoce (parte 6 - Descontrole)

June 7, 2020

A dilatação e todas em volta já estavam prontas para receber Gabriel.

Vi Wagner fazer o parto ali, no improviso. Tudo era limpo e claramente seguro.

Distanciei-me e encostei num carrinho com lençóis usados e amarrotados.

A gravidez era mais uma criação para me mostrar que nada nunca esteve sob meu controle.

Ela, grávida de outro, era como a derrota genética de um homem dono do próprio destino.

Por quê era importante ser o pai? Por quê o sentimento de posse era necessário?

Era meu momento de maior fragilidade e vulnerabilidade e eu ainda tinha que lidar com esse questionamento.

Eu tinha entendido, mas foi dolorido. Perder o controle não mais significaria perder.

Nenhum controle faria falta, nem mesmo o do próprio corpo.

E se só os pensamentos são passíveis de controle, o que pensar de um cérebro quimicamente alterado?

Não controlo nada.

Uma leve alegria e sentimento de satisfação queriam entrar, mas eu ainda teimava.

 

 


Neurologia era a especialização de Wagner.Trabalhava muito e fez fama com a profissão.

Com o retorno financeiro da fama, construiu casas, hospitais e uma vida boa para as duas famílias.

Mas hoje era um dia para se valer como médico, como há muito tempo não fazia. Há muito não se sentia valioso como se sentiu de novo naquele dia.

Não daria tempo de esperar um obstetra, teria de ser ali mesmo e Wagner seria o responsável.

A lavanderia do hospital era um lugar limpo e organizado mas, certamente, não era um bom lugar pra se dar à luz.

Era ali que as funcionárias do administrativo passavam os intervalos. Naquele hospital de Wagner, a rádio corredor era sintonizada na lavanderia.

Perto dali, havia uma porta corta-fogo que dava para uma rua de fundos e servia de fumódromo.

Era por onde Wagner tinha entrado. Estava ali fazendo um de seus passeios para checar se tudo funcionava como gostava.

 

 


Os lençóis eram apanhados na prateleira sem que ele precisasse olhar para o que fazia com a mão direita.

O fazia com a precisão de quem sabia o quê e onde encontrar.

Sua meticulosidade estava bem representada ali: lençóis bem dobrados e empilhados seguindo um metódico alinhamento e em pilhas da mesma altura.

Só esticava o braço para o lado, apanhava e sacudia o lençol, abrindo-o com um movimento brusco em meio à delicadeza com a qual trazia Gabriel ao mundo.

Uma espessa camada de tecido branco, amarrotado e encharcado de vermelho, forrava o chão de cimento queimado.

Gabriel nasceu e eu mantive o olhar perdido na atmosfera úmida da lavanderia. Era como eu me sentia: friamente perdido.

– É um garoto bem grande!

Ouvi Wagner dizer, mas continuei na mesma posição. Os olhos também não se moveram.

Wagner me olhou.

– Ele não é o pai? - perguntou em tom de quem já sabia a resposta, perpassando o olhar pelas mulheres em volta.

Giovana sorriu enquanto pegava a criança. Ela estava ainda mais bonita. Sua pele e seus olhos brilhavam incomodamente.

Eu queria fazer parte do momento, mas, além da mágoa fria que me invadiu o peito, o pai da criança estacionava o carro lá fora.

 



(Continua.)

 

 

 

 

Photo by Jeremy Sallee on Unsplash

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