Confinamento precoce. (8 - às moscas)

June 21, 2020

 

 

 

Se fosse comparado a alguma produção das telas, este relato seria como o episódio da mosca, em Breaking Bad.

 

Se você assistiu, sabe que nada de especial acontece neste episódio. Se não assistiu, não se preocupe, nada de especial acontece.

 

Uma auxiliar empurrou minha cadeira em direção ao quarto quando terminou minha sessão de fisioterapia. Era a minha primeira reabilitação, ainda em Lisboa.

 

Ela me estacionou em frente a TV. Embaixo da televisão, um relógio de ponteiros. Ali fiquei por quase uma hora e meia. Talvez um pouco mais.

 

Nada de importante aconteceu naquela hora e meia. A não ser minha vida acontecendo, um carro ou outro passando lá fora, uma ou outra voz passando no corredor. Na minha frente, um medidor de tempo preso à parede, logo abaixo de um televisor. Fora isso, nada mais aconteceu, até me buscarem para o almoço.

 

Tinha também uma mosca voando no quarto. Isso era tudo.

 

Eu já conseguia me mexer e movimentar o braço direito quando a mosca me importunava.

 

A TV estava com o volume muito baixo naquele dia.

 

Minha companhia sonora, então, eram vozes vez ou outra ecoando ao longe no corredor lá fora, carros esporádicos na rua, os rasantes da mosca, o tique-taque dos segundos e uma TV no volume mínimo.

 

Era estímulo suficiente quando o cérebro era meu órgão mais ativo.

 

Quanta ironia em uma só cena.

 

Na minha frente, o tempo. Em cima do tempo, uma quase obrigação de se estar distraído.

 

Photo by Daniele Levis Pelusi on Unsplash

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Recent Posts
Please reload