Confinamento precoce (9 - O raio-X da mentira)

July 6, 2020

A falha na deglutição entregou um desvio no comportamento. Um raio-X mostrou que tentar ser infalível pode ser contraproducente e até perigoso.

 

Era uma live da deglutição. Crânio, maxilar, faringe, esôfago, tudo ali, ao vivo, em preto-e-branco e alta resolução.

 

A imagem mostrou uma descoordenação dos movimentos durante o engolir.

 

Eu me engasguei, mas engoli o desconforto e fingi estar tudo bem, na tentativa de esconder a fragilidade da falha. O raio-x, no entanto, revelava a mentira.

 

Uma minúscula gota do líquido não seguiu seu caminho correto pelo esôfago e foi para os pulmões.

 

Era pouco líquido, mas foi o suficiente para acharem que, por eu não ter tossido, meus reflexos estavam comprometidos. Eu deveria ter engasgado.

 

Não tossi e enganei todo mundo. Era o que eu achava.

 

Esconder a falha só me dificultou a vida. Para eles, eu poderia me asfixiar bebendo água sem o uso de um espessante. Grãos, nem pensar. Mentir fez todos pensarem que a falta do reflexo do engasgo era uma potencial ameaça.

 

 

Numa tarde de quarto abafado e brisa quente entrando pelas finas cortinas, uma enfermeira observou que o pote de espessante não tinha sido tocado.

 

(É claro que não, eu não precisava daquilo.)

 

Chamou o médico e eu, orgulhoso do feito, inocentemente revelei a bem intencionada fraude.

 

Fui repreendido, claro. Um exame daquele não devia custar pouco para o quase impecável sistema de saúde pública austríaco.

 

Mesma assim, fui submetido a outro raio-x. Dessa vez, com comida e bebida.

 

O exame é divertido, ao menos. Ver o bolo-alimentar descer, a língua trabalhar, a garganta, a glote, a sincronia dos movimentos realizados involuntariamente.

 

A moral do exame; o resultado da história: a complexidade e a perfeição do corpo nos dispensam da inútil tentativa de sermos perfeitos.

 

A live, mesmo em preto e branco, deixou essa realidade bem nítida pra mim.

 

Foi preciso um raio-x para enxergar o óbvio. Uma live útil em tempos de confinamento.

 

Photo by National Cancer Institute on Unsplash

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