Confinamento precoce (10 - transferência a jato)

Ninguém dormiu bem na nossa última noite em Lisboa. Giovana precisou entregar um apartamento daquela noite para o dia seguinte, antes do café da manhã. Café que ela nem teve tempo de tomar.

Ela entrou no meu quarto perto das dez da noite, bem fora do horário de visita. Atrás, veio o Doutor Guilherme com um telefone sem fio na mão. Ambos com o semblante cansado.

– Temos que voltar amanhã de manhã - Giovana falou. Pude sentir sua tentativa de esconder a aflição em cada palavra.

– Eu tentei tudo o que pude, Gil - disse o jovem médico. Mesmo no vigor de um início de carreira, Doutor Guilherme estava claramente abatido. Ele sabia que eu precisava de mais uns dias ali.

Ele e Giovana (principalmente, ela) “apanharam” muito ao telefone. A seguradora não queria minha permanência em Portugal por nem mais um dia.

O seguro viagem do cartão de crédito diz cobrir os custos hospitalares e de traslado em caso de acidente. Aquele era um inquestionável-senhor-acidente. Um acidente bem caro.

Um avião-ambulância com médico e enfermeiro não deve ser barato. Mas calculo que o mais caro tenha sido os quase quatro meses até descobrirem a causa dos acidentes vasculares cerebrais (nem sei escrever o plural disso).

Fazia sentido (para a companhia do cartão) me “desovar” na Áustria assim que eu estivesse liberado para voar. Lá, eles não teriam mais custos.

Mas eu achava que não podia sair de Portugal daquele jeito. Eu mal falava devido à afasia - consequência da hemorragia tronco-encefálica. Agora, eu tinha que falar alemão e inglês.

Entrar de maca em um avião foi meu último sacolejo em solo português. Andei muito de ambulância para fazer exames e para ser transferido entre hospitais.

Uma maca que me prendia por três cintos de segurança. Quatro homens para erguê-la. Turbinas. Vozes já em alemão. Vozes em português. Vozes dissolvidas pelos ventos e pelas turbinas. Aviões decolando, aviões aterrissando, taxiando. Barulho. Bastante barulho e eu sendo carregado feito um cadáver.

Uma despedida coerente à minha percepção dos hospitais de Portugal: caótica e barulhenta. Foi assim meu embarque rumo à calmaria e organização austríacos.

Umas das lesões colocou minha audição no modo super-homem, por isso um lugar silencioso como Viena seria perfeito.

Voltar para a Áustria criou em mim a falsa sensação de que tudo estava se resolvendo. Muito inocente. Fui colocado em isolamento, confinado ao silêncio de um quarto com duas camas, uma delas vazia, a outra pra mim.

Assim permaneci por duas semanas, até descobrirem que, por conta de uma bactéria trazida de Portugal, o isolamento devia continuar.

Photo by Daan Stevens on Unsplash

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