Confinamento precoce (7.5 - os dois sóis)

O segredo mais bem guardado de Wagner era também um caprichoso passatempo. Eu ainda não sabia que, naquela noite, eu estava me tornando membro de uma verdadeira fraternidade.

À minha esquerda passava uma espécie de galeria de arte. Não foi sorte ou coincidência ter visto a sequência de sinais. Wagner monitorou não só a minha fuga do Hospital São José, mas guiou meus passos até Vera. Cada sinal me conduziu até o próximo e até o próximo e até o próximo. Agora eu estava no espaço mais bem escondido de Lisboa, com Wagner como áudio-guia dentro da minha cama-cabine flutuante. À esquerda da cama, calculo que a um quarteirão de distância, incrustado no barranco, vi ficando pra trás duas esferas de fogo. Agora o símbolo gráfico de todos os empreendimentos de Wagner fazia sentido Sempre dois círculos. Às vezes, duas esferas em diferentes perspectivas, mas sempre dois círculos. Era sempre Marcelo Serpa o responsável pelos desenhos. Wagner gostava tanto do trabalho de Serpa que o fez ser, também, o arquiteto responsável por sua casa oficial em Sintra, no alto de uma colina nos arredores de Lisboa. A casa foi capa de revistas e ganhou prêmios de arquitetura. A simplicidade era uma obsessão de Wagner, por isso gostava do trabalho de Serpa. O artista gráfico fazia jus aos anos que passou estudando design na Alemanha; conseguiu criar um estilo só seu. Wagner gostava de pagar por exclusividade. E nada nesse mundo me parecia ser mais exclusivo do que aquelas duas esferas de fogo.

– A humanidade precisa saber disso. As pessoas precisam ver isso. - falei como se tivesse certeza que Wagner me ouvia e como se eu soubesse o que tudo aquilo significava. Eu não tinha como saber nem uma coisa nem outra. Mas a sensação era de saber tudo.

Quando os dois sóis ficaram para trás, eu adormeci. Acordei com Vera pingando um colírio branqueador, me preparando para a entrevista. Wagner havia me convidado para ser CEO de seu principal hospital, o São José - um hospital de parceria público-privada em que Wagner e os outros acionistas possuíam 51% da posse. Vera disse que meu paletó e camisa estavam terminando de ser passados na lavanderia de funcionários do primeiro escalão e que era para eu aguardar ali, deitado. Eles queriam que eu estivesse tinindo na entrevista com os outros acionistas. Wagner não poderia desapontá-los com a sua indicação para a vaga que eles acabaram de decidir abrir. Escutei sua conversa com Vera antes dela voltar para terminar de me aprontar para a vídeo-conferência. – O senhor acha mesmo que ele pode ocupar a posição? - perguntou Vera.

– É um rapaz dinâmico, inteligente, perspicaz e, principalmente, ambicioso. Temos muito a aproveitar disso. Wagner conhecia bem os acionistas, sabia muito bem como impressioná-los.

Ser jovem, com os conhecimentos que eu tinha sobre marketing e conhecedor das entranhas do hospital por ser um caso pós AVC tão fora da curva me tornavam um candidato com brilho . Eu tinha tudo para ficar com o trabalho. Eu só me esqueci que o objetivo de Wagner era mais do que montar uma boa equipe administrativa. Ele precisava, também, agradar o board. Havia outro candidato escolhido por Wagner. Eu já estava feliz com a ideia de que algo de bom podia ser tirado um acidente neurológico tão grave. Mas eu ainda precisaria competir pela posição e meu oponente não era inferior. Ao contrário. João era um importante neurologista do hospital. Foi ele quem cuidou do meu caso. Mas João não era apenas um candidato forte. Além da experiência em gestão hospitalar, João era o pai de Gabriel. Perder aquela disputa significava muito mais do que só perder uma vaga de trabalho.

Photo by adrian on Unsplash (manipulated)

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