Desconexão mente e cérebro. A base do preconceito e o capítulo 11 do confinamento.

August 6, 2020

A mente não ficou fora do ar.

A falha de conexão entre cérebro e corpo não me tirou do painel de controle da mente.

 

Minha luta tem sido 1) melhorar a conexão cérebro-corpo, com diversas terapias, e 2) manter a mente serena e usá-la para potencializar a conexão cérebro e corpo.

 

Eu não conseguiria dizer qual dessas batalhas tem me exigido mais energia e concentração.

 

Enquanto estive deitado nas camas dos diferentes hospitais e centros de reabilitação, a vida era mais fácil.

 

Ficar deitado era uma questão de dias; logo, logo eu sairia dali andando. Nunca tive a real dimensão do problema.

 

Hoje, eu entendo que ninguém sonegava as informações. Era imprevisibilidade mesmo.

 

A primeira vez que vi uma cadeira de rodas vazia vindo na minha direção, tratei com indiferença e naturalidade. Era como ser recebido quando se chega muito mal em um hospital.

 

Era só uma facilidade da qual eu pensava não precisar. “Que mordomia ficar passeando sentado” – pensei.

 

 

A consciência corporal era muito limitada. Nem a minha própria voz eu conseguia ouvir como ela realmente saía. Meus ouvidos me enganavam.

 

A mente me enganava e isso me salvou durante muito tempo. A mente me salvou da própria mente. Isso, sim, é uma mente brilhante. Já o cérebro, coitado. Esse se lascou bastante.

 

Foram múltiplas lesões isquêmicas. O ápice do estrago foi o sangue no tronco-encefálico.

 

A hemorragia parou. O corpo absorveu o coágulo e eu acordei rindo para a sogra. Isso eu já fazia, não foi sequela.

 

Mas a imprevisibilidade era a palavra de ordem dali pra frente.

 

 

Em uma sessão de terapia ocupacional, já estávamos depois do expediente e o terapeuta aproveitou o meu corpo para uma lição aos residentes.

 

– Ao olhar para o paciente, vocês diriam que ele é capaz de erguer o braço esquerdo?

 

As três jovens responderam um “não” convicto e quase uníssono.

 

– Gil, levante o braço esquerdo, por favor – de pé, ao meu lado, ele inclinou-se ligeiramente para falar, como se fossemos cúmplices.

 

Todo empenado na cadeira de rodas, levantei o braço com bravura. As meninas sorriram para esconder o desconforto do erro.

 

– Vocês acham que há força nessa mão? - voltou a perguntar o terapeuta, dessa vez balançando meu braço, segurando pelos dedos e sacudindo como um "crossfiteiro" e sua corda.

 

Olhares duvidosos para o meu corpo torto e para o professor. Olhares que buscavam em mim apenas uma resposta certa, não uma forma de consertar o que viam.

 

 

A garota quase se ajoelhou na minha frente. Com o lado esquerdo desligado sensorialmente, a falta do tato não me deixava medir a força. Ela quase teve a mão quebrada quando o terapeuta disse “aperta“.

 

– Nunca diagnostique ou tire conclusões sobre um paciente só de olhar. Todas erraram porque se basearam na teoria. Acidentes neurológicos são imprevisíveis.

 

Na prática, eu era imprevisível, mesmo. Continuo sendo. Absolutamente nenhum médico ou terapeuta se arrisca em dizer até onde pode ir minha recuperação.

 

Não vejo preconceito de nenhum profissional de saúde.  De nenhum profissional de saúde. 

 

 

A extrema unção é também chamada de unção dos enfermos. É um sacramento pra quem, realmente, está na pior.

 

Considerando que eu tive um Padre na minha cama aplicando este sacramento e agora eu estou aqui contando a história, quem arrisca previsões?

 

Mesmo uma mente brilhante não assumiria o risco de dizer o que ainda pode acontecer.

 

 

 

Photo by Mat Reding on Unsplash

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