Um cutuque de gratidão (Confinamento Precoce - 12)

Ontem, pela primeira vez em meses, fui grato por não ter morrido.

Por muito tempo, tive a certeza de que morrer seria o caminho mais fácil.

Foi a primeira vez que senti uma centelha de gratidão genuína pela vida.

Passou depressa, logo fui lembrado que tenho um corpo que não condiz com a mente - mente que teima em funcionar como antes.

Rapidamente, fui tirado desse vão de gratidão. A dor do lado esquerdo do corpo me lembrou que eu não podia ficar ali por muito mais tempo. A cadeira de rodas me lembrou que eu tinha que sair logo dali. A lentidão para me mover me fez sair depressa.

Lembretes não vão mais faltar para me tirar desses lapsos. Tenho consciência de que preciso aumentar esse pedaço de tempo e transformar o vão em uma passagem bastante acessível. Já entendi que é um processo, que os nervos têm um tempo diferente, principalmente quando se trata do sistema nervoso central.

Meu cérebro falhou e me deixou na mão, deixou meu corpo e minha mente bem desconectados. A mente agora se desacelera para acompanhar um novo ritmo.

O mesmo cérebro e suas lesões deixaram minha esposa com uma guia de espólios repentina, um saquinho plástico com as roupas e a aliança e um Padre para a extrema unção. Estava praticamente consumada a morte, mas fiquei e fiquei consciente.

Ter a consciência preservada parecia ser um castigo, mas é essa cognição praticamente intacta que tenho usado a meu favor.

Tem sido difícil me interessar por outro assunto, a não ser os sintomas que ainda são fortes demais, as lembranças de hospitais, de médicos e enfermeiros manipulando meu corpo, ainda são lembranças fortes demais, as sequelas têm sido cruéis demais.

Agora, tenho também a mania de ficar vigiando minhas emoções. É assim que as crises de fúria não se repetem. As de pânico já aprendi a controlar ainda nos hospitais.

Isso vai facilitar a aparição de novos vãos de gratidão, tenho certeza. Vou aprender a identificá-los com mais facilidade.

Photo by Maxwell Young on Unsplash

Ainda no travesseiro, quando abro os olhos pela manhã, o dia começa com nota dez. O primeiro pensamento, porém, tem o poder de derrubar essa nota antes mesmo que eu saia da cama.

Voltar para o travesseiro à noite com o mesmo número em mente é quase impossível, dada a quantidade de acontecimentos no dia e as minhas reações a cada um deles.

Interceptar as emoções e filtrar as impurezas das reações requer esforço psicológico e vigilância. Por isso provoca também boa dose de autoconhecimento.

Chegar ao fim do dia satisfeito com o próprio resultado vale o esforço

É assim que tenho agido ultimamente: com ajudas químicas (para otimizar o funcionamento do cérebro) e parcerias humanas (que tem funcionado bem para manter a mente mais serena). Uma coisa acaba ajudando na outra:.

O antidepressivo, o regulador de humor, as ervas chinesas têm se mostrado determinantes. A psicoterapia e a meditação também têm sido importantes.

E todas as noites, na volta para o travesseiro, compartilho a avaliação do meu dia - com uma nota que varia de 0,1 a 10,0 - e uma lista com as 3 coisas pelas quais eu fui grato no meu dia.

Essa foi minha lista de ontem:

Dividir essa lista de gratidão com amigos e ver a lista deles e delas todos o dias, ver a trivialidade da vida e como é fácil ser grato, tem sido reconfortante.

E com essas ferramentas somadas ao tempo-rei, os vãos de gratidão vão ficando mais largos e vão se tornando uma passagem para um lugar fácil de visitar.

Espero que você também conheça esse caminho. Se não, comece procurar e torne-o fácil de localizar para acessar sempre que for preciso. Se for preciso.

Abraço com força,

Gil.

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