A fé de quem não sabe o que é Deus.

Na semana passada, recebi a visita de um amigo, que é pastor evangélico.

Mesmo sendo batizado como católico e sido praticante por muitos anos, hoje digo que não tenho religião. Entretanto, gosto de perguntar “o que é Deus?” às pessoas que gostam de falar a respeito.

O que é Deus além de mais uma palavra? Assim como muitos outros, Deus é mais um substantivo de letra maiúscula. A semântica conta mais do que a classificação ortográfica, sintática ou que a consagrada gramática. É só perguntar a quem crê pra você ver. Meu amigo visitante, por exemplo, rodou, rodou, pregou, citou passagens da Bíblia e não me deu uma resposta clara. O que ficou claro é que ele, mesmo sendo um veículo da palavra de Deus, não consegue definir o que é Deus. Parecia um político diante de uma pergunta capciosa em entrevista ao vivo. Eu, como espectador, observava o exímio orador fugindo do tema - o que faz zerar na redação. Dias depois, recebi a visita de um casal de amigos e falamos sobre o mesmo assunto. “Você acha que Deus é essa figura masculina, barbuda, que mora no céu?” “Você ensinaria para o seu filho que no céu tem um papai?” “Por que ele é um papai? Isso não reforça o, hoje tão combatido, patriarcado?” “Na sua opinião, Ele seria feminista?” “Ele seria vegano ou ainda explora e tira outras vidas para viver?“ Perguntas assim fizeram o papo render. Recentemente, fui convidado para palestrar em um grande evento de Viena. Eu contaria sobre a minha experiência de quase morte e como tem sido a vida após tantas lesões no cérebro. Eu começaria o discurso com o conceito de “Egrégora” - palavra que descobri logo depois de recobrar a consciência. Achei provocador vincular tal conceito à minha experiência, visto que uma egrégora pode ter ajudado a me salvar da morte. Não fiquei surpreso quando recebi um e-mail dizendo que o meu discurso era sem fundamento científico, que espiritualidade é um terreno escorregadio e que o evento precisa manter suas policies a esse respeito. Eu não sei o que é Deus; não faço a ideia do que seja a vida. Sequer sabia o que é uma egrégora. Ao fim do discurso, eu convidava a plateia a refletir sobre o que é a vida, sem nenhum viés religioso, claro. Mas o discurso foi vetado. Talvez, por eu não ter feito nada grandioso na vida, a não ser ter escapado da morte. Talvez, porque o discurso tinha, mesmo, uma pegada espiritual muito forte, mesmo sem falar de religião. Espírito. Deus. Religião. Crença. Tudo se mistura na divina controvérsia.


“O universo é um aquário; a água é Deus.” “É uma energia capaz de tudo.” “É o que você quiser, desde que você acredite.” “É um espírito perfeito que nos salva do fogo do inferno.”

Todas são definições de Deus que já ouvi.

Uma amiga nova, que o AVC me trouxe, contou que voltou a andar depois que fez as pazes com Deus. Ela também teve um AVC, teve convulsões, teve descobertas desagradáveis, teve perdas irreparáveis. Ela disse que brigou com Deus. Mas quando a perguntei o que é Deus, ela disse que “é uma energia que tudo pode.” Ela disse que, apesar das perdas e dos pesares, fez as pazes com Deus e Ele a ajudou a voltar a andar.

Um padre esteve ao lado da minha cama para a unção dos enfermos, sacramento também conhecido como extrema unção. O mesmo amigo que chamou o padre foi quem fez os orçamentos funerários. Esse amigo, o padre católico, a funcionária do hospital que embalou minhas roupas em um saco plástico e o médico do plantão acreditaram no mesmo desfecho: minha morte. O pessoal da egrégora acreditou em outro final. Contrariando as probabilidades, eles eram os certos. Minha esposa e um grupo de WhatsApp com mais de 100 conhecidos formaram a Egrégora que contrariou crenças e estatísticas. Ando procurando um jeito de mudar pergunta. Por hora, questiono o poder de uma crença, seja ela coletiva ou individual. Tem quem acredita em Deus, tem quem acredita em egrégoras e tem goste de batata. O que a fé pode fazer é maior do que qualquer definição de fé. Nesse caso, é mais uma questão psíquica e egregorica do que semântica. Pouco importa a definição de Deus. Importa mais o que a gente acredita. Isso, sim, tem poder. O físico ateu tinha um crucifixo na parede do quarto. Questionado sobre o motivo de ter um símbolo cristão pendurado na parede, ele responde: "olha, eu não acredito, mas quem acredita garante que é verdade. Por via das dúvidas, deixo pendurado ali." Acho que ando me comportando como o físico ateu.




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Photo by Johannes Plenio on Unsplash


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