Inveja afro-bege

Assumo e confesso que eu sou preguiçoso e relapso com novos termos para velhas coisas.

Exemplo: cisgênero, afro-bege, cristofobia... não é possível, estão inventando coisa.

Acho importante que a palavra passe a ser conhecida. Isso mostra que estamos evoluindo.

Encontrar palavras novas significa nomear conceitos antes impronunciáveis e, por isso, não reconhecidos.

Hoje, quase todo mundo sabe o que é uma pessoa cis e uma pessoa trans. Estamos aprendendo enquanto evoluímos.

Novos conceitos tendem a ter uma fase de pré-conceitos. Normal da vida, eu diria.

Hoje cedo, falei com Giovana que eu estava sentindo uma mistura de inveja e admiração.

Ela me disse que estava começando a entender mais as letras das músicas em alemão.

Nesse momento, ela está fazendo uma prova para trocar de faixa. Ela vai ter o nível B1 a partir de hoje.

Quem estuda ou estudou o idioma alemão sabe que o B1 não é moleza.

“Que inveja branca!” - pensei em falar quando ela me contou sobre sua feliz percepção de proficiência.

Como eu sou um cara altamente ligado nos parangolés do politicamente correto, automaticamente freei a fala.

Ora, se a inveja branca é boa, subentende-se a preta é ruim. Sendo o escuro contrário ao claro, sendo o branco iluminado e o preto a ausência de luz, estaria eu sendo racista ao categorizar minha admiração como inveja branca?

Na dúvida, pensei em ficar no meio termo e classificar a inveja como parda, mas lembrei que pardo não pode mais ser cor.

Na dúvida, deixei minha inveja afro-bege (que também é um conceito novo para substituir o pardo enquanto cor de pele).

Achei que, assim, colocando uma cor politicamente correta, ninguém estaria sendo atingido de raspão e eu ficaria feliz com a cor da minha inveja.

Mas não deu certo.

Acabou que eu não gostei do resultado final da minha inveja. Acabei optando por uma inveja colorida.

Mas me dei conta de que a comunidade LGBTQRSTUVXZ (prefiro errar pra mais) pode não gostar de ter suas cores associadas a um sentimento ruim.

Descobri que só o que posso ter inveja. E um pouco de neurose, talvez.

Mas admiro quem chega ao B1 de alemão



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